Uma das maiores (e melhores) surpresas que o Festival do Cairo nos serviu em 2025, Complaint No. 713317, agora em exibição em Roterdão, deu a conhecer ao mundo Yasser Shafie, um jovem cineasta egípcio que, na sua primeira longa-metragem, revela uma maturidade digna de quem já percebeu que, no mundo contemporâneo, um problema doméstico pode ser mais devastador do que uma qualquer tragédia clássica. E não pela escala, mas pelo desgaste acumulado.
Eis um cinema e um filme que, logo à primeira longa, entende que a opressão não desce apenas de cima com estrondo, mas infiltra-se suavemente nas juntas do quotidiano, nos balcões “virtuais”, nos atendimentos à distância, nos formulários infinitos e, sobretudo, nas idas e voltas de algo que, quando regressa ao sítio de onde saiu, volta sempre com um novo problema.
Deslocando a tradicional comédia egípcia da palavra para a situação, e instalando-se no território em que o absurdo deixa de ser um mero artifício cómico, Yasser entra no domínio da radiografia política, social e íntima, sem nunca perder uma toada comercial. E no processo (palavra importante por aqui), ele cria um verdadeiro mar de risos cúmplices perante o labirinto kafkiano que os protagonistas enfrentam.
Baseado na própria experiência do cineasta com um frigorífico avariado, o filme transpõem a sua história para um casal idoso, Magdy e Sama, quando o velho aparelho refrigerador avaria e chamam um técnico para o arranjar. Esmagados pela economia (uma classe média a caminho da baixa) e por uma masculinidade antiquada que estala onde menos se espera, a dupla oferece ao filme o que o sistema recusa às suas personagens: atenção, cuidado e reparação.
Filmado numa única locação — a casa/cozinha do casal — Complaint No. 713317, que no próprio título ironiza a repetição processual, é trabalhado esteticamente com uma lógica minimalista requintada, tanto na direção artística como nos enquadramentos estáticos da câmara, o que lhe confere uma dimensão quase teatral. Sim, o filme poderia facilmente transformar-se numa peça de teatro de vasto alcance (ou inspirar remakes locais), pois embora o cineasta tenha como alvo imediato o país da sua origem, o Egito, os percalços que os protagonistas enfrentam encontram eco um pouco por todo o mundo, seja com um eletrodoméstico, um carro, ou um pedido de licenciamento de uma obra.

A acompanhar uma cenografia minimalista e de requinte, de primor cinematográfico que já valeram ao cineasta comparações com Wes Anderson (embora os cenários tenham mais de Roy Andersson a visitar Aki Kaurismaki), a direção dos atores prima pelo desmontar de imagens prévias de quem surge em cena. Mahmoud Hemida, habituado a papéis mais dramáticos na esfera do entretenimento egípcio, revela uma comicidade discreta e inesperada, enquanto Shereen acompanha-o com segurança na visita ao poço burocrático onde o casal caiu. E mesmo que a tal masculinidade ultrapassada coloque, a certa altura, a dupla em conflito emocional, o afeto entre os dois é inegável e chega ao espetador com ternura. Nos entretantos, uma aparição surpresa de Inam Salousa levou o público local ao êxtase, orquestrando esta pequenas contracenas, a que se junta um sub enredo curioso com a filha do casal e o ex-companheiro, que também não deixa incólume as feridas misóginas que ainda ecoam na sociedade.
No final de tudo isto, Complaint No. 713317 afirma-se assim de forma conseguida no seu retrato sobre como a dignidade se perde e se recupera nos detalhes, isto num país exausto onde até um frigorífico pode ser a metáfora perfeita: sempre prestes a avariar, sempre prestes a ser reparado e, quase sempre, sempre devolvido em pior estado do que se encontrava inicialmente.
Um belo primeiro filme que certamente será descoberto por esta Europa fora.




















