Curiosa a forma como o cineasta iraniano Alireza Khatami explora a ideia de que cada pessoa contém múltiplas identidades que emergem consoante o contexto, numa espécie de poliglotismo emocional, uma mudança da “língua interior” como resposta a um episódio disruptor ou traumático. Uma frase simbólica desse processo é usada pelo nosso protagonista, um professor, numa aula, em que fala que a “tradução” (tarjama) leva à aniquilação da forma original (matar) para criar outra equivalente. Esta frase metafórica cristaliza os fundamentos decisivos de The Thing That You Kill, ou seja, a destruição de uma versão de si mesmo por parte do protagonista, que leva à construção de um outro de si. 

Já com um conjunto de curtas e longas-metragens na bagagem, incluindo o drama chileno Los Versos del Olvido (2018) e Terrestrial Verses, assinado a meias com Ali Asgari, que nos levava ao Irão, o cineasta viaja agora até à Turquia para construir uma narrativa sobre identidade fragmentada, memória traumática e a forma como cada contexto convoca uma versão diferente de nós mesmos, seja por proteção, sobrevivência e/ou vingança. 

No centro da trama temos Ali (Ekin Koç), um homem casado, na casa dos trinta anos, que juntamente com a sua esposa (Hazar Ergüçlü), oito anos mais nova, procura resolver um problema de infertilidade, que cedo descobrimos ser dele. À superfície, é um casal que vive bem e tenta construir uma vida estável, mas Ali trava secretamente uma luta silenciosa, um conflito com o pai (Ercan Kesal) enraizado nas suas profundezas, pronto a ser remexido a provocar um terremoto emocional. Quando Reza (Erkan Kolçak Köstendil) aparece à procura de trabalho, a vida de Ali começa a expor fissuras, pois o homem vê neste estranho uma espécie de reflexo sombrio de si mesmo — alguém que o confronta com aquilo que foi, com aquilo que teme ainda ser ou que talvez deseje de se tornar.

A chave do filme, da transformação, está na morte da mãe de Ali, que despenca uma reação brusca do homem contra o pai, com o ressentimento, vergonha e memórias que ele próprio tentou enterrar a explodirem qual vulcão adormecido que entra em erupção.

São diversas as tensões que o conduziram a esse eclodir  – a mãe doente, o pai autoritário do qual guarda distância e a pressão da esposa para procurar um tratamento de fertilidade. É isso que desperta Reza em Ali, servindo uma área de cultivo, a que ele chama jardim, como epicentro do renascimento (ou ressuscitar).

Com atenção ao detalhe, seja no texto, seja na construção das personagens, seja na arranjo estético, Alireza Khatami faz de uma conversa na escola, com outro professor, o elemento nuclear que abre todas as portas que pareciam fechadas para o espectador. Aí descobrimos o trauma de Ali e a razão porque foi estudar literatura durante anos para os EUA, porque voltou “a casa” e porque odeia a figura paterna. E, ao ouvirmos isso, o puzzle fica completo para um dos filmes mais interessantes do ano, repleto de ambiguidade e camadas, que usa o suspense e o elemento duplo para explorar como cada um de nós transporta várias versões de si mesmo, e o que acontece quando uma delas decide assumir o controlo.

No mais, é evidente que Alireza Khatami incorpora elementos da sua própria biografia no filme: um cineasta iraniano a filmar na Turquia, tal como já filmou em espanhol no Chile. A divisão entre Ali e Reza espelha o seu nome, tornando o filme tanto uma narrativa de identidade fragmentada como uma espécie de meditação pessoal sobre quem somos quando atravessamos fronteiras, sejam elas geográficas, linguísticas ou internas.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-thing-that-you-kill-um-homem-dividido-entre-memorias-feridas-e-renascimentosCuriosa a forma como o cineasta iraniano Alireza Khatami explora a ideia de que cada pessoa contém múltiplas identidades que emergem consoante o contexto, numa espécie de poliglotismo emocional, uma mudança da “língua interior” como resposta a um episódio disruptor ou traumático.