Primeira realizadora e produtora dos Emirados Árabes Unidos, Nayla Al Khaja deu nas vistas em 2024 com a sua primeira longa-metragem, Three, onde deixava claro que a sua incursão pelo drama, como porta de entrada para o thriller psicológico — repleto de códigos do cinema de horror — faz parte da sua marca autoral. No filme seguimos Ahmed, um rapaz atormentado por terrores noturnos e comportamentos cada vez mais violentos, levando a mãe a procurar explicações espirituais — incluindo rituais islâmicos de expulsão de djinns (demónios) — e, mais tarde, ajuda médica ocidental. O confronto entre crenças, sistemas de cura e abordagens culturais torna-se o centro dramático da narrativa.

Baab, segunda incursão da cineasta na realização de longas-metragens, segue a mesma veia, partindo de um elemento dramático intenso — uma jornada de luto — para construir uma teia de suspense em torno de uma mulher assombrada pela morte da irmã gémea, cujo sofrimento se manifesta através de um zumbido constante, acompanhado pela saída de um líquido negro viscoso dos ouvidos. Ninguém na casa onde ela vive quer falar dessa morte, especialmente a matriarca, e é numa das suas visitas noturnas ao entretanto interditado quarto da irmã que tenta perceber o que aconteceu, funcionando uma velha aparelhagem e algumas cassetes como “porta” (Baab significa exatamente isso) para o desvendar do mistério.

Embora ainda apresente alguns problemas ou tropeções na imposição do ritmo e recorra frequentemente a imagens derivativas do cinema de horror — ainda que muito bem construídas, com destaque para a fotografia de Rogier Stoffers — , Nayla Al Khaja domina os códigos do suspense, exigindo da sonoplastia um trabalho de requinte que nos transporte para a instabilidade psicológica da sua peça central, Wahida, bem encarnada pela atriz Shaimaa El Fadul, a qual sustenta a viagem da sua personagem entre a memória, imaginação e perda do sentido de realidade. 

É no som que reside a maior tensão que o filme consegue transmitir: o designer de som Krishnan Subramanian é peça central, oscilando entre o quotidiano e o pesadelo na construção de uma atmosfera cada vez mais inquietante, com momentos em que o som parece rasgar o espaço, criando um mal-estar físico no espectador, instado a tapar os ouvidos.

Saltitando entre os anos do passado à irmã, separados por capítulos, e o presente, Baab acaba por ser sobretudo uma viagem pela fronteira ténue entre realidade e alucinação, o espírito e o material. Nas suas falhas e dons, o filme fez-me recordar as primeiras tentativas de massificar o terror tailandês no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 – Nang Nak (1999), Lhorn (2000), Shutter (2004),The Unseeable (2006), The Uninvited (2007) –  quando histórias profundamente enraizadas no contexto local recorriam aos códigos do cinema ocidental e oriental (especialmente do pós triunfo comercial do J-Horror) para apresentarem incursões híbridas no género — obras que oscilavam entre a fidelidade a uma mitologia própria e a vontade de dialogar com um público global. Baab herda isso mesmo, procurando afirmar a sua identidade cultural ao mesmo tempo que usa gramáticas visuais e sonoras já reconhecíveis, criando um filme que vive entre dois mundos, tal como a própria protagonista.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
baab-o-segundo-mergulho-de-nayla-al-khaja-na-escuridao-emocional-e-no-terrorSaltitando entre os anos do passado à irmã, separados por capítulos, e o presente, Baab acaba por ser sobretudo uma viagem pela fronteira ténue entre realidade e alucinação, o espírito e o material.