A escolha de filmar em 16mm de grão vivo é mais que uma opção estética por parte de Peter Sant, que faz de Żafżifa – na competição internacional do Festival do Cairo – um exercício estilizado sobre identidade, onde a Malta que filma não é apenas um espaço geográfico, mas sensorial. Usando o formato de forma nostálgica e simbólica, como que evocando um tempo e espaço que já não existem, o cineasta australiano de nascimento, maltês de ascendência, transporta para o ecrã algumas das questões identitárias que certamente o marcaram, numa tensão contínua entre lugar, memória e transformação, da cidade e dos homens que vivem ou regressam a ela.
Filmando com atores não profissionais em open sets — sem fechar ruas, sem isolar o mundo real —, criando um fluxo imprevisível entre intérpretes e ambiente, Sant dá-nos a conhecer a personagem de Dimitrios (Dimitrios Giannakoudakis), que no início do filme chega à cena como quem regressa. Mas regressa a quê? Simultaneamente estrangeiro e familiar nesta localidade do norte da ilha, ele move-se como um corpo que parece procurar reconhecer as ruas, as lojas, os apartamentos improvisados e tudo com que se cruza. Nunca encontra definição e a sua identidade é como a da cidade, em suspensão.
A cidade é peça-chave aqui: saturada, em mutação permanente, com edifícios a crescer sobre o vazio, enquanto outros locais outrora com vida soam a ruínas de uma antiga civilização. É impossível olhar para aquela paisagem sem sentir que a identidade do território está a ser empurrada para um canto, esmagada entre progresso e perda. O filme capta essa sensação como quem filma a pele de uma cobra a mudar, algo que Dimitrios terá também de fazer, de se transformar. Numa das cenas, a imagem de um camaleão morto não é acidental, interpretando-se a sua presença como um pequeno manifesto sobre a capacidade de mudança e o fracasso dessa mesma transformação. Pelo meio, o retrato da vida de migrantes, trabalhadores precarizados ou habitantes deslocados, particularmente depois da introdução de uma empregada filipina que se torna interesse amoroso de Dimitrius, reforça a ideia de estranhamento e deslocação.
Sonoramente, o filme é também ousado, funcionando como um elemento sensorial para a desorientação atmosférica. Muitas vezes, som e a imagem vão-se desalinhando propositadamente, com momentos em que ouvimos vozes antes de ver as pessoas, criando um desfasamento. A banda sonora, em grande parte improvisada e depois manipulada em fita analógica, funde-se com este universo acústico até já não sabermos se estamos a ouvir música ou ambiente transformado, reforçando a sensação de estranhamento.
Żafżifa é uma palavra maltesa rara que designa o som produzido quando o ar ou um líquido atravessa uma abertura — um sopro a escapar, um esvaziamento, um fluxo que passa por onde não devia ou já não cabe. A escolha deste termo pelo realizador não é arbitrária, pois carrega a sensação de perda, como se algo estivesse a ceder de dentro para fora. No contexto do filme, uma imagem final de um castelo insuflável a desinflar condensa o significado de um mundo que se esvazia, de uma identidade que se desfaz, de uma ilha que muda mais depressa do que os corpos que a habitam conseguem acompanhar.




















