A náusea que Laudry (no original Uhlanjululo) provoca não é sensacionalista nem punitiva, mas pode ser definida — criticamente — como “educativa”, na sua recriação histórica crua. Importada do TIFF para a disputa pela Estrela de Ouro de Marraquexe, a longa-metragem realizada por Zamo Mkhwanazi transporta o espectador ao Joanesburgo de 1968, no auge do regime de segregação racial. A narrativa centra-se em Khuthala, um jovem que recusa herdar a lavandaria da família e sonha com a música. A sua habilidade com instrumentos de sopro é notável. Contudo, a repressão do governo do apartheid aos negócios geridos por empresários negros — retaliados sob a designação racista de “nativos” — ameaça destruir não só o seu sustento, como também os seus sonhos. O rapaz é forçado a fazer escolhas que gravitam entre a lealdade familiar e as aspirações pessoais. Há um pai dedicado, uma irmã assolada por violências machistas e um mundo idealizado de inclusão que se desfaz sob a imposição de uma língua colonizadora.
Apresentado originalmente como projecto em desenvolvimento nos workshops da secção profissional da plataforma Atlas Workshops, de Marraquexe, em 2024, esta coprodução Suíça–África do Sul, das companhias Akka Films e Kude Media, tem uma montagem enervante, que progride do drama ao trágico sem sair dos trilhos do debate político. A obra insere-se na linha expositiva de denúncia das práticas racistas institucionais, alinhada com inquietações avançadas pelo teórico decolonial Stuart Hall (1932–2014) acerca da “performatividade” da exclusão pelo capital. Segundo Hall, “em termos de colonialismo, subdesenvolvimento, pobreza e racismo, foi a presença europeia que, na representação visual, colocou o sujeito negro dentro dos seus regimes dominantes de representação: o discurso colonial, as literaturas de aventura e exploração, a sedução do exótico, o olhar etnográfico e viajante, as linguagens tropicais do turismo, das brochuras de viagens e de Hollywood e as linguagens violentas e pornográficas da ganja e da violência urbana.”
Zamo Mkhwanazi constrói a linha narrativa da realização a partir de uma dimensão quase pornográfica do exercício de controlo por parte de sectaristas brancos. O pai de Khuthala é espancado por falar um dialecto zulu, num gesto que traduz a imposição legal do inglês britânico como língua de ordem numa pátria fracturada.
Nascida em Durban e criada em Umlazi, a cineasta formou-se na Universidade da Cidade do Cabo e dedicou-se a curtas-metragens — como Philia, The Call (2015), Red Rooster (2016) e Sadla (2019) — que passaram por festivais como o Clermont-Ferrand International Short Film Festival, o Toronto International Film Festival e o Sundance Film Festival, antes de propor um painel das arbitrariedades que assolaram o seu país. Avança agora para a longa-metragem com um retrato duro — mas ainda assim comovente — de um período de segregacionismo amparado por um Estado sem empatia.
A temperatura de cor da fotografia é mais quente nas sequências musicais, nas quais o jovem protagonista exibe a sua intimidade como instrumentista, alimentando a ambição de um dia colocar o seu talento ao serviço do jazz americano. Já o barulho das pedras que se quebram, em trabalhos braçais, a dado momento da sua trajectória, abafa o seu solfejo, numa película que não se rende à esperança — não para alarmar, mas para lembrar horrores que podem sempre regressar.




















