Primeiro dos treze candidatos à Estrela de Ouro de Marraquexe a passar pelo festival em 2025, o drama Promis Le Ciel (traduzido como Paraíso Prometido) é uma coprodução franco-tunisina que iniciou o seu percurso em Cannes, como título inaugural da disputa pelo Prix Un Certain Regard de 2025. Numa realização firme e capaz de contornar os mais variados moralismos (incluindo no campo religioso), a cineasta Erige Sehiri acompanha o quotidiano de três mulheres em Túnis — Marie, Naney e Jolie — cujas rotinas de luta contra as asperezas da pobreza se alteram quando acolhem Kenza, uma menina sobrevivente de um naufrágio.

A narrativa constrói uma família improvisada onde solidariedade e tensão coexistem, revelando as fricções sociais e as dinâmicas de género — sob a sombra dos sobressaltos inerentes à migração — que marcam o espaço urbano. O tom do filme é íntimo, sempre numa cadência observacional, com enquadramentos que reagem ao colorido das ruas e dos interiores por onde o trio circula, numa direcção de fotografia (assinada por Frida Marzouk) moderada na temperatura das cores. As encenações privilegiam a economia do gesto, enquanto os diálogos — pontuais, por vezes coloquiais — expõem questões políticas contemporâneas, sem nunca deixar de lado a solidão.

Erige Sehiri, nascida em Lyon mas focada, na sua dramaturgia, em temáticas da sociedade tunisina, iniciou-se no documentário com La Voie Normale (2018), onde estruturou a sua metodologia de trabalho, sempre seca no tratamento dos conflitos afetivos. A notoriedade conquistada em 2022 com Sous Les Figues, apresentado na Quinzaine des Cinéastes de Cannes, consolidou-a como cronista de comunidades periféricas. A estética que amadurece em Promis Le Ciel nasce de um procedimento dramatúrgico que mistura realismo social e delicadeza poética, frequentemente centrado em figuras femininas resilientes.

A sororidade é o eixo da narrativa. Marie, uma pastora marfinense (interpretada com rectidão por Aïssa Maïga), vive há dez anos na Tunísia. A sua casa oferece refúgio à jovem Naney (Débora Lobe Naney, a intérprete mais dinâmica em cena), obrigada a abandonar o seu filho, e a Jolie (Laetitia Ky), uma estudante determinada sobre cujos ombros recai a esperança da sua família. Quando Kenza (Estella Kenza Dpgbo), uma órfã, se muda para viver com elas, a convivência destas potências femininas adultas é posta à prova de forma intensa.

A banda sonora delicada de Valentin Hadjadj e o trabalho de som contribuem para uma atmosfera contida, que intensifica a experiência sensorial desta longa-metragem centrada no debate sobre refúgio e pertença.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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