Vaias que, há dez anos, no Festival de Cannes de 2015, pareciam sentenciar Gus Greene Van Sant Jr. a uma desaparição forçada, após a projecção de The Sea of Trees (2015), ecoam hoje de forma discreta, como um murmúrio distante, no momento em que Dead Man’s Wire devolve ao realizador uma glória há muito adormecida. Lançado em Veneza, em meio à homenagem ao cineasta com o prémio Campari, a longa-metragem agitou os ânimos e elevou a tensão em Marrocos, na sua projecção (acolhida com aplausos) na abertura do 22.º Festival de Marraquexe. Trata-se de um thriller narrativo, com viragens estruturadas pelo guião segundo fórmulas clássicas de dramaturgia dos EUA. Ou seja… não é o Van Sant que venceu a Palma de Ouro de 2003 com Elefante e o Prix du 60ème da Croisette, em 2007, com o colossal Paranoid Park – ambos metafísicos e mais digressivos. Também não é o Van Sant melodramático de Finding Forrester (concorrente ao Urso de Ouro de 2001). Aproxima-se mais de Sidney Lumet, sobretudo por evocar (em demasia) Dog Day Afternoon (1975). Seria fácil dizer que se trata de uma evocação desse filme de culto ou de uma releitura dos heist movies políticos da Nova Hollywood. Seria… mas não é… porque existe um caso real na base. Além disso, está presente todo o arsenal de experimentações de linguagem que Gus testa desde Mala Noche (1986), sobretudo no modo como trabalha a textura das imagens.
Já colocado entre os prováveis concorrentes a estatuetas desta Oscar Season, Dead Man’s Wire nasce de um crime real com uma forte carga de disputa financeira. O produtor britânico Cassian Elwes (irmão do actor Cary Elwes), conhecido por The Paperboy (2012), levantou o filme com base numa história verídica ocorrida em 1977, no Indiana. O caso: um homem chamado Anthony George Kiritsis entrou na corretora de valores com a qual tinha um conflito ligado a uma hipoteca milionária e fez refém uma das proprietárias da empresa, Richard Hall – personagem, portanto feminina enquanto termo, mesmo sendo ele um homem. Kiritsis manteve uma espingarda de cano serrado apontada ao pescoço da vítima, prendendo a arma ao seu pescoço com um arame. Por causa daquele fio metálico, a polícia não tinha forma de intervir: o mais ínfimo movimento podia rebentar-lhe a cabeça. A situação deixou a imprensa em alvoroço no final da década de 1970, que acompanhou o caso de forma ostensiva – e com um perfume sensacionalista.
Há imagens de arquivo da figura real de Kiritsis no final de Dead Man’s Wire. Não surgem como meros adereços ilustrativos, como é habitual nas reconstituições históricas. Entram na montagem final – nevrálgica, na mão de Saar Klein – para dar corpo a um debate incisivo de Van Sant contra a espetacularização do crime pelo jornalismo. Já havia ecos desse discurso no seu oscarizado Milk (2008), mas agora o gesto é mais frontal. O guião de Austin Kilodney adopta uma postura crítica ao incluir um apresentador de rádio de grande notoriedade, Fred Temple (que Colman Domingo interpreta com esplendor), encarregado de comentar a brutalidade em direto e de servir como testemunha do sequestrador – que era fã dos seus programas.
Kilodney escreveu o guião após descobrir os feitos de Kiritsis através de um podcast. A redacção desse argumento saiu do papel em 2020 e o projecto ganhou corpo em 2022. Werner Herzog surge listado em várias fontes como o cineasta que iria filmar este enredo. Só que o mestre alemão por trás de Fitzcarraldo (1982) terá desistido do trabalho às vésperas de filmar e não avançou com Elwes. Em Marraquexe, o produtor não mencionou o nome do artesão germânico, mas afirmou que, depois da desilusão com esse cineasta que abandonou a empreitada, contactou mais dois potenciais realizadores — e nenhum deles ficou. Ao cruzar-se com Van Sant nos EUA, apresentou-lhe a premissa, que foi imediatamente acolhida, sobretudo depois de Gus saber que as filmagens decorreriam em Louisville, a sua cidade natal, no Kentucky.
Um dos actores mais requisitados pelo Cinema de género do momento, o sueco Bill Skarsgård (o palhaço assassino de It, A Coisa (2017)), interpreta Kiritsis num desempenho transpirado, sofrido, crispado e, por tudo isso, arrebatador. Apoia-se nos recursos gestuais praticamente infinitos que possui. Dacre Montgomery interpreta Hall, cujo pai-personagem é encarnado por Al Pacino. O eterno Serpico dá vida dono da corretora de valores que ludibria clientes e coloca a própria filha-personagem — Hall — em risco, sem qualquer apoio.
Na banda sonora, que rompe fronteiras diegéticas nas engrenagens da estação de rádio de Fred, Danny Elfman revisita o cancioneiro dos anos 1970 sem cair em chavões da época. É um regalo para os tímpanos, tal como a fotografia de Arnaud Potier joga com o grão para seduzir o olhar, numa evocação do que as películas ofereciam no período histórico retratado em cena.




















