Tratado espanhol sobre cicatrização, acomodação e acolhimento, Los Destellos chega às salas portuguesas com o título de Pequenos Clarões, já acompanhado dos elogios que conquistou no Festival de San Sebastián. Saiu de lá, em 2024, com a Concha de Prata, distinção atribuída ao desempenho da sua protagonista, Patricia López Arnaiz. No Brasil, o filme teve sessões esgotadas na Mostra de São Paulo, onde passou com o título de Os Vislumbres.
Fala-se de literatura com fôlego, como se fosse um analgésico, nas conversas que injetam naturalismo em Los Destellos, um dos títulos espanhóis de maior maturidade — plástica e dramatúrgica — do 72.º Festival de San Sebastián, despertando alusões a um poema de Lope de Vega (1562-1635). Os versos dele dizem: “Ir e ficar, e com a permanência, partir, partir sem uma alma e ir com a alma de outra pessoa, ouvir a doce voz de uma sereia e não ser capaz de se afastar da árvore; queimar como uma vela e apagar-se.” Esse é o ritual que move as personagens que a cineasta Pilar Palomero extraiu do livro Un Corazón Demasiado Grande (2017), uma coletânea de relatos da escritora basca Eider Rodríguez, cujo eixo temático parece ser sempre a conciliação. A versão cinematográfica dos seus contos segue pela mesma via.
Depois de Las Niñas (2020) e La Maternal (2022), dois títulos de pouca vitalidade, Pilar avança por veredas estéticas mais ambiciosas ao criar uma fricção visceral entre a natureza e a cultura na observação do processo de rearranjo afetivo de uma mulher perante a perda anunciada do seu ex-companheiro e dos ruídos na relação com a filha. Interpretada com suavidade por Patricia López Arnaiz, Isabel leva aquilo a que chama “uma vida frugal”, no campo. As paisagens de Horta de Sant Joan e Tortosa — utilizadas como locações da longa-metragem — acolhem bem a sua protagonista num cenário rural de vegetação vívida. A sua rotina mantinha-se tranquila até a filha, Magdalen (Marina Guerola), decidir que quer reaproximar-se do pai, Ramón, figura sofrida construída com marcas existencialistas por Antonio de la Torre.
Há pelo menos quinze anos, Isabel afastou-se dele e iniciou um novo relacionamento. Não se diz de forma explícita a razão que levou o ex-casal à separação, mas sabe-se que os dias de Ramón estão contados, em decadência devido a uma doença terminal. Magdalen sente que quer permanecer ao lado dele no seu calvário, movida pelo carinho abissal com que é tratada por aquele que sempre foi apaixonado pela leitura e pela escrita. No passado, sustentava-se com trabalhos como vigilante e como fabricante de tijolos, mas, nas horas vagas, escrevia… e lia, muito.
Pouco se sabe da relação de Isabel com a prosa ou com poemas. O que se torna evidente no seu perfil é a mágoa que sente ao ter de se aproximar de alguém hoje fragilizado, com quem rompeu vínculos há muito. O apreço de Magdalen por Ramón produz nela incómodos impossíveis de disfarçar, não por raiva do antigo companheiro, mas pela sensação de que a harmonia que acreditou ter erguido é passageira, vulnerável aos ciúmes pela sua cria.
Parece existir apenas uma solução viável para o desconforto de Isabel: acomodar o pretérito imperfeito do afeto num novo arranjo. Para isso, vai embrenhar-se numa geografia física de belezas naturais, nos moldes do que Lope de Vega descreve nos versos referidos antes. Pilar regista esse périplo da sua heroína com movimentos de câmara delicados, abertos a closes, permitindo que as pessoas falem — e falem muito —, consciente de que os verbos podem exorcizar feridas e erguer istmos entre ilhas sentimentais separadas há demasiado tempo. O seu olhar sereno demonstra cumplicidade com as angústias que a atuação firme de Patricia López Arnaiz depura nos seus olhares e silêncios.




















