Fábrica de produzir sonhos, Hollywood é também uma fábrica de jargões e um deles, dos mais longevos, “America’s Sweetheart”, sobreviveu às patrulhas avessas à objetificação e, em sintonia com os novos tempos, atrás de novos mitos, passou a ser aplicado à actriz de 28 anos Sydney Bernice Sweeney. O termo, traduzível como “Queridinha da América”, é um apelido não oficial, usado pelos media norte-americanos para descrever uma figura pública amplamente admirada e amada pelo público. O título é normalmente concedido a uma jovem mulher vista publicamente como um signo de virtudes — das mais antigas às mais universais. A canadiana Mary Pickford (1892-1979) é considerada a primeira figura mediática a carregar esse apelido, atribuído a ela pelo produtor teatral David Grauman, em 1914, e posteriormente usado pelos estúdios de Cinema para promover o seu trabalho.

Daí em diante, outras estrelas da Era de Ouro de Hollywood, entre elas Shirley Temple (1928-2014) e Debbie Reynolds (1932-2016), ganharam essa alcunha, que, ao longo das décadas de 1990 e 2000, se expandiu para intérpretes de comédias românticas e dramas familiares, como Meg Ryan, Julia Roberts e Reese Witherspoon. Essa designação moldou a carreira dessas profissionais de muitas formas — na aceitação do posto de heroína e na negação dele — em construções e reconstruções de personas. O êxito de Sweeney na série Euphoria, seguido da boa bilheteira (202,0 milhões de dólares) que valeu ao lado de Glen Powell em Anyone But You (2024), habilitou-a a tornar-se uma “queridinha”. E, nesse posto, ambiciona prestígio (na forma de uma nomeação para o Óscar) com o drama desportivo Christy (2025), num movimento semelhante ao de Margot Robbie em I, Tonya (2017).

Assente num trabalho delicado de maquilhagem que transforma o seu rosto apolíneo, Sydney empenha-se em aprofundar as angústias existenciais da sua personagem, a pugilista Christy Martin, numa biografia cinematográfica sobre obsessões que finca raízes no combate ao femicídio e na luta contra a violência sexista exercida sobre as mulheres. É um empenho comovente, com um retorno à altura do seu investimento, capaz de fugir às convenções mais melodramáticas dos filmes de boxe, que olhos menos generosos chamam de telenovela. A poesia habitual do filão que nos deu Rocky (1976) está em cena, mas filtrada por uma abordagem realista e seca, assente num debate sobre o machismo estrutural das Américas. O trabalho da protagonista conta com o apoio de uma realização madura do australiano David Michôd, que, depois de experiências arrojadas pelas veredas do thriller (The Rover) e do épico (The King), regressa à trilha da crónica social do seu estupendo Animal Kingdom (2010).

As estripulias narrativas dos enquadramentos das suas produções mais recentes ficam de lado na recriação que propõe do calvário profissional e pessoal de Christy Martin, a partir das suas rusgas com a mãe homofóbica, Joyce (uma caricata Merritt Wever), avessa à sua orientação bissexual e ao seu namoro com uma jovem. Tudo piora (muito) após o casamento da lutadora com o seu treinador e futuro agente, James V. Martin — mais um papel que se beneficia do som e da fúria que fazem de Ben Foster um talento, embora subestimado.

Com um orçamento de 15 milhões de dólares, Michôd promove uma série de reconstituições históricas sempre pautadas por uma paleta de cores seca, sem carregar nas tintas, apoiado numa estética mais intimista, entregue pelo director de fotografia Germain McMicking. O calor do filme vem da montagem de Matt Villa, suficientemente tensa nas tomadas de ringue e ágil nas situações que vão do dramático ao trágico. Essa edição livra Christy dos recursos narrativos corriqueiros dos filmes sobre pugilistas, quase sempre estruturados sobre asceses e redenções, à exceção de Raging Bull (1980), que deu o Óscar a Robert De Niro. As vitórias que vemos limitam-se à consagração (merecida) de Sydney e à discussão sólida sobre violência doméstica.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/c29v
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
christy-o-gongo-da-consagracao-bate-para-sydney-sweeneyMichôd promove uma série de reconstituições históricas sempre pautadas por uma paleta de cores seca, sem carregar nas tintas, apoiado numa estética mais intimista, entregue pelo director de fotografia Germain McMicking