Um dos géneros mais contaminados por aquilo a que se pode chamar inteligência performativa é o thriller. Com frequência, o espectador depara-se com argumentos que se revestem de uma aparência rocambolesca de genialidade, cheios de voltas e reviravoltas, mas que, na verdade, funcionam como puzzles propositadamente resolúveis, concebidos para que o público sinta o prazer de ter “descoberto o truque” — truque esse que, no fundo, é evidente. O objetivo é oferecer o conforto de acreditar que o espectador desvendou um grande mistério, lembrando-se este mais do filme pela sua descoberta do que pela eficácia da teia de suspense que se construiu.
Relay, de David Mackenzie, sofre desse mal, tão comum no cinema de suspense contemporâneo (A Mulher da Cabine 10 é outro belo exemplo recente). Bem estruturado na primeira hora, o filme vai perdendo interesse à medida que revela o passado do seu protagonista e a sua aproximação a uma cliente — revelações que introduzem erros e incoerências difíceis de ignorar no meio da genialidade inicialmente apresentada.
No centro de tudo está Riz Ahmed como um solitário intermediário que ganha a vida a ajudar pessoas que decidiram tornar-se denunciantes (whistleblowers), mas que se arrependeram. Ele serve de ponte entre funcionários que tentam expor práticas criminosas e os representantes das empresas que procuram abafar o escândalo. Tudo isto, naturalmente, é ilegal, e Ahmed atua como um fixer na tradição dos hackers e intermediários que o cinema tantas vezes retrata — alguém cuja identidade permanece oculta tanto para quem o contrata como para quem negoceia com ele.
O melhor do filme — e é inegável — está na forma como o argumento contrapõe o mundo analógico, que Ahmed domina, à vigilância digital de alta tecnologia a que a sua cliente está sujeita. Com ecos de The Conversation e Three Days of the Condor, Mackenzie cria momentos de tensão hitchcockiana, seja numa rua apinhada, num aeroporto ou num concerto de música clássica — sempre ancorados em personagens que se transformam e revelam, na sua solidão, o ponto de origem para uma ligação que gradualmente assume contornos de romance contido e ambíguo.
Essa possível ligação nasce de Sarah (Lily James), uma cientista que trabalha para uma empresa e que, depois de roubar um relatório capaz de comprometer a organização, se arrepende e tenta devolver tudo, fugindo tanto à lei como às forças obscuras que a querem silenciar.
Na primeira metade do filme, o típico jogo do rato e do gato, conduzido com rigor e frieza, é envolvente. Mas quando a solidão das personagens as leva a quebrar as regras, os “erros” começam a acumular-se, fazendo o filme perder fulgor e a ganhar desconfiança e previsibilidade. O impenetrável torna-se penetrável — e quem sai a perder é o suspense.
Ainda assim, Riz Ahmed tem uma boa atuação na sua figura de figura que age nas sombras, encontrando do outro lado da barricada — em Sam Worthington e nos seus subordinados — adversários que reforçam a sua dimensão e complexidade. Pena é que a dependência do filme em relação a reviravoltas não funcione verdadeiramente como a cereja no topo do bolo. Aqui, a cereja esmaga o bolo – que se pode comer na mesma, mas que perde, inevitavelmente, beleza e subtileza.
No fim, Relay deixa a impressão de um thriller que queria ser espelho de um mundo em vigilância constante, mas que acaba por se vigiar demasiado a si próprio, como que preso no querer parecer mais engenhoso do que é. Fica alguma elegância de Mackenzie em transportar o espírito dos filmes da década de 1970 para a atualidade, a contenção de Ahmed e a promessa de um filme que, se tivesse confiado mais no silêncio das personagens do que no ruído dos seus truques, poderia ter sido verdadeiramente memorável.




















