No cinema, os cães têm sido tanto espelho da lealdade e da nobreza humana como projeção dos seus medos. Só lançando alguns exemplos, eles são companheiros fiéis em Lassie Come Home (1943) e Hachiko (2009), heróis involuntários em I Am Legend (2007) e Mad Max 2 (1981), e ameaças em Cujo (1983) ou The Thing (1982). Em White Dog (1982), de Samuel Fuller, o animal torna-se vítima e arma, símbolo da violência que o homem ensina, enquanto, na saga Indiana Jones, mesmo sem ser protagonista, vem de um cão o nome adotado pelo herói.
Há agora um outro Indy na paisagem cinematográfica: o protagonista de Good Boy – Fiel até à Morte, um filme de terror que tem conquistado os aficionados do género (e dos cães) desde a sua estreia no SXSW, sobretudo por narrar uma história de assombro a partir da perspetiva de um animal — um Retriever da Nova Escócia que se muda com o seu cuidador humano, visivelmente doente, para uma casa isolada, cujo passado está envolto nas sombras.
A perspetiva não humana como dispositivo de horror poderia facilmente soar a mero truque cinemático — como o modelo em “terceira pessoa” do assassino de In a Violent Nature, de Chris Nash, acabou por demonstrar — não fosse Ben Leonberg saber dar substância a uma artimanha, convertendo o artifício em linguagem e sentido.
Good Boy funciona bem nas suas incursões pelos elementos simbólicos que, ao longo de décadas, alimentaram algumas das melhores obras do género: as casas isoladas (e eventualmente assombradas), a morte que paira devido à doença terminal do protagonista humano, e o passado familiar sombrio que atua como amálgama de todas as angústias.
Do ponto de vista etológico, os cães não possuem conceitos abstratos como os humanos: não compreendem a “morte” como final ou “doença” como alteração biológica, apenas as mudanças sensoriais — de cheiro, comportamento e rotinas -, além do sofrimento pela ausência. O maior triunfo de Leonberg está em sugerir que o cão, invadido por imagens e sons tenebrosos na casa onde vive, percebe “algo”, mas não sabe o quê — deixando ao espectador a tarefa de interpretar se aquilo que vemos são elementos sobrenaturais ligados ao passado obscuro da casa ou à própria figura da morte, que paira no ar. Nesse sentido, é impossível não recordar The Others, de Alejandro Amenábar, no que toca a confusão e dúvida nas perceções, ou The Eye, dos irmãos Pang, onde a chegada do fim era figurada como uma sombra que se aproximava lentamente dos que estão prontos a partir.
Visualmente, Good Boy é uma experiência de imersão sensorial, pois frequentemente Leonberg posiciona a câmara à altura do cão, confinando o olhar do espectador ao seu nível. Cada corredor, cada porta entreaberta, cada som transforma-se em território de ameaça. Contra-plongés e até um plano zenital reforçam a distorção de escala e o desconforto — os humanos surgem com rostos desfocados, enquanto a casa se impõe como um corpo tão doente como a do humano que por lá pernoita. Os close-ups no rosto de Indy, nas orelhas tensas e no olhar de tensão intensificam tanto a empatia quanto a inquietação.
É nesse território de incerteza que o espectador se move. As ambiguidades e interpretações são o que o filme tem de mais rico, mesmo que os sustos habituais — amplificados por uma banda sonora derivativa — se multipliquem. Indy não interpreta o que vê, mas sente; o mundo que o cerca é uma sucessão de estímulos visuais e sonoros que não entende, mas que nos atingem diretamente. Ao conseguir isso, mesmo sem recorrer à espetacularidade, Good Boy afirma-se como um pequeno triunfo e um dos filmes de terror mais curiosos do ano.




















