Com vasta experiência no cinema documental, bem como em ficções que partem do real, Kevin Macdonald tem vindo a deixar a sua marca no cinema através de obras como One Day in September (1999), que lhe rendeu o Oscar ao revisitar o massacre de Munique, Touching the Void (2003), que reinventou o género documental misturando rigor factual com emoção cinematográfica, ou o Último Rei da Escócia, em que relata o brutal regime do ditador ugandense Idi Amin visto pelos olhos de seu médico pessoal durante a década de 1970.

Com apetência para narrar factos a partir das tensões do íntimo, nunca esquecendo o mundo — e a pressão — que rodeia as figuras observadas, como aconteceu também nos seus filmes Marley (2012), Whitney (2018) e O Mauritano (2021), não era de estranhar que o escocês fizesse uma incursão pelo percurso de John Lennon e da sua parceira amorosa e criativa Yoko Ono, logo após ele sair dos Beatles. Assim nasceu One to One: John & Yoko que, na órbita do real e pessoal, observa o período em que o casal vivia em Nova Iorque e estava embrenhado no movimento de contracultura norte-americano.

Chamando a cena vídeos, áudios e fotografias de arquivo da época, onde se incluem filmes caseiros, chamadas telefónicas gravadas, performances e entrevistas, além de temas musicais devidamente restaurados, Macdonald monta o seu objeto documental ao estilo de “zapping” televisivo, entrelaçando ideias artísticas, sociais e políticas, até chegar ao concerto beneficente One to One, realizado a 30 de agosto de 1972 no Madison Square Garden.

Esse concerto — que tinha como objetivo arrecadar fundos para a Willowbrook State School, epicentro de um dos maiores escândalos de negligência e abuso institucional da história dos Estados Unidos — servia a John e Yoko de metáfora perfeita ao que se vivia nos EUA: um país que se via como farol de liberdade e progresso, mas escondia instituições de exclusão, racismo e miséria sob a fachada do crescimento, do poderio em tempos de Guerra Fria e do aumento do consumismo (vários anúncios da época, mostrados no filme, reforçam essa ironia). 

John e Yoko denunciavam isso de todas as maneiras e feitios, fosse na cama de um hotel, num palco improvisado perante multidões, numa galeria de arte, ou através de músicas, concertos e, claro, múltiplas entrevistas na TV e na Rádio. 

Considerando o alinhamento dos temas lançados nesse período e a sua construção artística, Kevin Macdonald nunca dissocia criação musical dos protestos internos que definiram a contracultura — com o motim da prisão de Attica, a Guerra do Vietname e figuras como Jerry Rubin e John Sinclair a cruzarem-se no caminho ativista e artístico de Lennon e Yoko, inspirando canções como “Give Peace a Chance”, “John Sinclair”, “Attica State”, “Instant Karma! (We All Shine On)” e o inevitável “Imagine” (1971).

Temas pessoais ligados a Yoko, como “Don’t Worry Kyoko (Mummy’s Only Looking for Her Hand in the Snow)”, são também chamados à playlist, não sendo Yoko nunca tratada como um apêndice de John, mas uma força per se, bem longe da ideia generalizada e misógina da época que fora a responsável pela saída do cantor dos Beatles.

A verdade é que Yoko entrou na vida de Lennon em 1966, quando ele já se encontrava cansado da rotina da banda e preso dentro da própria fama. Artista vanguardista japonesa, apresentou-lhe um mundo completamente diferente, e são vários os momentos em que o documentário nos permite ouvir, separadamente, as vozes dos dois a refletir sobre a relação — como quando Yoko afirma ter sido promovida a “bruxa” pelos fãs dos Beatles após a saída de John da banda. Sobre o facto de os restantes Beatles nunca falarem dela — apesar de Yoko sempre os elogiar —, ela atribui tal silêncio ao machismo e ao chauvinismo. Ao incluir esses momentos, Macdonald mostra-a não como uma figura “divisora”, mas como uma força intelectual que impulsiona Lennon a olhar o mundo de outra forma e a agir. Evitando igualmente cair na narrativa da vítima ou do bode expiatório, o cineasta prefere mostrá-la como uma força viva que vai mantendo a sua vida e ideias em frente, mesmo que genericamente fosse vista como um elemento externo que teria manipulado John Lennon, separado a banda e usado a fama dele para se projetar.

A expressão “One to One” vem desse novo John, com Yoko agora ao seu lado, numa ideia de ação direta e empatia individual, em vez do pensamento em revoluções abstratas ou na salvação coletiva através de slogans. Lennon e Yoko propunham um ativismo pessoal e concreto — a arte como gesto de ação e o concerto no Madison Square Garden é exemplo dessa filosofia: uma confrontação à América conservadora, em crise moral, que perpetuava a guerra e a vigilância, enquanto se arrecadavam fundos para aqueles que estavam institucionalizados no local.

Ao longo dos 111 minutos de One to One: John & Yoko, o nome de Bob Dylan, como precursor e motor ativista da transformação cultural contra o sistema, percorre igualmente todo o documentário, bem como os atritos que teve com nomes fortes da contracultura, como A. J. Weberman.

O cineasta vasculha este período com um olhar atento tanto ao íntimo do casal como aos eventos políticos, revoltas sociais e movimentações artísticas e ativistas, sem evitar abordar a perseguição que o governo de Nixon moveu contra os dois — inclusive através de escutas do FBI —, ainda que evite explorar muito o rumo paranoico que começou a consumir Lennon a certa altura, motivado por essa vigilância constante.

O resultado final é, assim, um documentário denso e envolvente, que se posiciona entre a arte, o ativismo e a política num dos períodos mais conturbados e polarizados da história dos Estados Unidos — e, no fundo, não tão diferente do que vivemos hoje. Se pensarmos bem, o que o cineasta escocês nos oferece não é nada de novo em termos factuais, mas a sua abordagem efetivamente proporciona um olhar mais abrangente na interligação entre os vários elementos.

One to One torna-se, portanto, não apenas um retrato histórico, mas também um espelho contemporâneo da persistente luta entre liberdade e poder. Numa das últimas imagens do filme, Allen Ginsberg lamenta a derrota da proposta para pôr fim à discriminação contra os homossexuais, recusada na época, lembrando que muitas das lutas e feridas desse período atravessaram o tempo até à modernidade — assim como o pensamento liberal, ainda cego aos mecanismos de privilégio, e a lógica de vigilância e conservadorismo que continuam a marcar os tempos modernos.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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