No momento em que Ralph Fiennes entra em cena, em The Choral, no papel do maestro Guthrie, o filme de Nicholas Hytner garante ao público o sentido de espetáculo esperado do cinema comercial britânico — um cinema que, ao contrário do norte-americano, evita excessos e se ancora na delicadeza. De James Ivory a Peter Cattaneo, as estruturas dramáticas do Reino Unido, na construção de autoralidades rentáveis — isto é, de marcas de autor em projetos capazes de encher salas (ainda que não como os blockbusters de Hollywood) — apostam em histórias de contenção e de renúncia. O argumento de Alan Bennett, ambientado nos bastidores da Primeira Guerra Mundial, não foge a esse registo.

Há momentos em que o “não dito” grita, como no olhar indignado do maestro Guthrie diante da celebração dos seus músicos perante a notícia de um massacre dos “inimigos alemães” num ataque marítimo. Toda a barbárie do espírito da época dos anos 1910 torna-se compreensível — e condenável — através da atuação subtil de Fiennes. Apenas convém advertir: não se deve esperar em demasia situações como essa, pois trata-se de um filme morno. Há picos de catarse, sobretudo na forma como o guião se abre à ironia, mas, no cômputo geral, a Inglaterra acaba derrotada pela monotonia, vítima do seu próprio excesso de subtileza.

Encenador de prestígio no Velho Mundo, Hytner é um artesão da cena teatral, mas padece de burocracia na transição para o écran, ainda que se rodeie sempre de excelentes intérpretes. O seu The Crucible (1996), apesar de contar com Daniel Day-Lewis, Winona Ryder e Paul Scofield (1922–2008), nunca incendiava o olhar do público, por se sujeitar em demasia a rubricas próprias do palco.

A contenção é também o ponto fraco do realizador em The Choral — que será lançado no Brasil com o título Sinfonia de Guerra. A sua passagem pela Mostra de São Paulo manteve o título original em inglês. As projeções mobilizaram o circuito em parte graças ao carisma de Fiennes.

A trama de Bennett decorre em 1916, na cidade fictícia de Ramsden, Yorkshire. Há uma convocatória gradual dos jovens locais para se alistarem no conflito contra as tropas germânicas e outros adversários. O sector mais organizado da classe média pretende organizar um concerto para elevar o moral da população. Compositores alemães são excluídos do programa, mas a chegada de um experiente professor de Música, habilidoso na regência de orquestras — o já referido Guthrie — oferece uma alternativa: apresentar O Sonho de Gerôncio, de Edward Elgar, um compositor anglo-saxónico.

O centro da dramaturgia reside na preparação do coro e nos confrontos emocionais entre os seus membros. Contudo, há um lado mais interessante que se insinua à medida que Guthrie deixa emergir os seus demónios e frustrações. A revelação é subtil, mas percebe-se que ele reprime desejos e esconde verdades. O maior erro de Hytner é não aprofundar esse inferno sentimental, deixando o protagonista à superfície, apesar de tudo o que Fiennes oferece. Falta ainda cuidado na conceção plástica, com uma direção de fotografia apática, sem vigor nas cores e tímida no uso das sombras.


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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-choral-solfeja-a-partitura-da-subtileza-em-demasia O maior erro de Hytner é não aprofundar esse inferno sentimental, deixando o protagonista à superfície, apesar de tudo o que Fiennes oferece.