Filho do realizador Anthony Minghella (O Paciente Inglês, Cold Mountain), Max Minghella começou como ator, aparecendo em The Social Network e Syriana, mas acabou por seguir os passos familiares na realização com Teen Spirit (2018), onde já demonstrava o fascínio por figuras aprisionadas em sonhos fabricados. O filme parte da história de uma mulher que tenta ascender pelo brilho da indústria musical — uma fábula sobre talento, fama e consumo que nos chega numa embalagem de sonho pop, cruzando o videoclipe, o conto de fadas moderno e o drama adolescente.

Essa prisão dos sonhos transforma-se em algo mais sombrio em Shell, onde o glamour da fama dá lugar ao terror do rejuvenescimento artificial. Se em Teen Spirit o britânico mostrava o desejo de entrar no sistema, Shell mostra o horror de tentar permanecer dentro dele, quando se atinge uma determinada idade e se ganham formas corporais que começam a chocar com os padrões da indústria.

É inevitável falar de The Substance quando falamos de Shell, não apenas pela incursão no body horror, mas porque ambos se sustentam em antigas estrelas do mundo do entretenimento que começam a sair da órbita do consumo audiovisual com a passagem do tempo. Só que, em vez de Demi Moore em busca do seu “renascer”, disposta a tudo, temos Elisabeth Moss (ou a sua personagem, Samantha Lake) como uma mulher que o mundo ensinou a medir o próprio valor pela aparência, e que vive o colapso físico e psicológico ao tentar manter essa imagem através do recurso a uma empresa que oferece um “elixir” da juventude baseado na senescência.

Apesar da essência crítica a uma doença social que impele as mulheres a manterem-se eternamente jovens, a principal diferença entre os dois filmes é que Fargeat filma o horror corporal como espetáculo grotesco, usando o body horror como comentário feminista que deve bastante ao cinema de Cronenberg e à estética dos videoclipes e programas dos anos 1980. Shell, com as mesmas influências, é mais frio, com um tom asséptico e esterilizado que carece de verdadeiro arrojo visual, o que tem consequências no arranjo emocional e na ligação do espectador à temática e à protagonista. Aqui predominam os brancos clínicos, cinzentos metálicos e tons pálidos, com o uso deliberado de iluminação artificial, interiores imaculados e texturas lisas a criarem uma aparência minimalista com sensação de controlo — até que se percebe o vazio que está por trás dessa superfície. Se o filme de Fargeat é um café intenso que nos dá um choque de energia e não nos deixa dormir, o de Minghella é um descafeinado que nos leva numa viagem que se sente já vista e à superfície.

Elisabeth Moss tenta contrariar, com as suas ferramentas dramáticas, a falta de explosão que o guião do filme revela e o arranjo visual que nunca explora efetivamente os horrores por trás da aparência. A atriz, que além de brilhar na série The Handmaid’s Tale – onde atuou com Max – surgiu de forma espetacular em O Homem Invisível, volta aqui a ser vítima do gaslight. Em ambos os filmes, ela vive mulheres cuja perceção da realidade é manipulada, corroída por forças externas que tentam convencê-la de que está errada. Mas se no filme de Leigh Whannell o gaslighting é literal — o vilão torna-se invisível e faz a protagonista duvidar da própria sanidade —, em Shell o mecanismo é mais insidioso, vindo da própria indústria do entretenimento, repleta de desculpas esfarrapadas para a sua ausência no ecrã, e da cultura corporativa do bem-estar e do “autoaperfeiçoamento” — materializada no papel de Kate Hudson como uma executiva e dona corporativa que tenta esconder os erros da sua própria empresa, de forma derivativa, superficial e minada de frases feitas sobre os fracassos da ciência na busca dessa perfeição.

O resultado final é um filme da mesma estirpe de The Substance, mas que, ao satirizar e caricaturar a luta pela perfeição, parece hesitar em mergulhar plenamente no absurdo e na ferida social que pretende expor.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
shell-o-terror-do-corpo-e-a-armadilha-da-juventude-eternaUm filme da mesma estirpe de The Substance, mas que, ao satirizar e caricaturar a luta pela perfeição, parece hesitar em mergulhar plenamente no absurdo e na ferida social que pretende expor.