Maureen Fazendeiro (1989-), realizadora franco-portuguesa, escreve o argumento e realiza As Estações, a sua primeira longa-metragem, um ensaio documental inventivo, de tonalidade poética e SUAVEMENTE política, filmada na região sul alentejana. Parceira artística do realizador português Miguel Gomes, coescreveu com ele a premiada ficção Grand Tour (2024) e correalizou o drama Diários de Otsoga (2021).

Em As Estações, Maureen faz uma escavação do tempo, tecendo uma arqueologia de uma paisagem fílmica que envolve os círculos temporais do passado e do presente, atravessando os anos de 1945 da Guerra, os anos ditatoriais e do Estado Novo (1926-1974), a Revolução de 1974 e os tempos atuais. Sem cronologia, esses círculos não se interligam diretamente no filme, mas desenham uma coexistência temporal e da memória de Portugal.                            

Um filme sobre a circularidade do tempo, que combina relatos de trabalhadoras rurais, modos de vida no campo, histórias orais, cartas e notas de um casal de arqueólogos, imagens de arquivo amador e invenções. Um documentário criador, não convencional, que constrói uma cartografia da temporalidade real e inventada do Alentejo, dos povos tradicionais que ali viveram e vivem.

Segundo Maureen, durante a realização de As Estações, leu obras de W.G. Sebald, autor que discorre sobre o tempo, a memória individual e coletiva, os traumas da guerra e a condição humana.

As Estações foi filmado em 16mm, algo pouco habitual atualmente, dados os custos e desafios de exibição. A realizadora escavou o tempo fílmico aliado ao tempo da vida, fazendo coexistir passado, presente e futuro. Filmou em longos e lentos planos e travellings horizontais as belas paisagens naturais das planícies alentejanas — percursos antes feitos por um casal de arqueólogos alemães, Georg e Vera Leisner, que durante os anos da Segunda Guerra Mundial estiveram no Alentejo a inventariar monumentos megalíticos (com cerca de seis mil anos) na região de Reguengos de Monsaraz.

Maureen revela que o filme surgiu a partir de um artigo que leu no jornal Público, em 2015, sobre os estudos desenvolvidos pelo casal Leisner em Portugal. Durante a pesquisa, teve acesso às cartas trocadas entre os Leisner e outros arqueólogos e académicos portugueses e estrangeiros, relativas às investigações arqueológicas realizadas em Portugal entre 1920 e 1972 — correspondência que revela factos científicos, mas também a dura e resistente realidade daquele tempo no Alentejo.

Maureen documenta o imaginário dos arqueólogos, usando imagens de arquivo e filmando o quotidiano do povo alentejano nos dias de hoje. Regista o modo de vida simples do campo e a serenidade das pessoas idosas que vivem em aldeias quase perdidas no tempo, lugares onde já não há crianças nem jovens. Diante da câmara, os habitantes recordam o extenso passado de luta pela terra, o tempo das cooperativas rurais, a terra da fraternidade de um povo acolhedor, corajoso e simples de uma região ainda hoje economicamente desfavorecida. Narram as histórias de uma geração da qual restam poucos sobreviventes.    Na escrita do filme, percebemos a fragmentação das lembranças de um tempo que não se apaga e de uma paisagem que mudou ao longo das décadas.

A realizadora constrói um olhar poético sobre uma região símbolo de resistência política, como se vê em imagens de arquivo amador (de um conhecido seu), gravadas em 8mm e recuperadas depois de 45 anos guardadas. Uma das pessoas que aparecem nas imagens relata que a Revolução de 25 de Abril de 1974 — o movimento popular que libertou Portugal do salazarismo — trouxe coragem e esperança ao povo alentejano para se libertar do domínio dos patrões latifundiários, mas que, após alguns anos, a utopia deu lugar, outra vez, ao poder e controlo dos mesmos. Importa recordar que o salazarismo assassinou e torturou muita gente, deixando marcas indeléveis e um temor que ainda hoje habita o espírito português.

Na conversa após o debate do filme, na sessão do Doclisboa no Cinema São Jorge, no dia 23 de outubro, Maureen, que cresceu em França e vive em Lisboa, contou que antes do projeto não conhecia o Alentejo. Em 2017, esteve lá pela primeira vez para iniciar a pesquisa no terreno.

Embora tenha filmado separadamente as paisagens das quatro estações do ano (primavera, verão, outono e inverno), a cineasta declarou que, na montagem, elas se misturaram, fazendo coexistir diferentes extratos de tempos e memórias. O filme demorou oito anos a ser concluído, incluindo dois de escrita e o longo processo de pesquisa, como relatou a realizadora.

Nas suas notas de intenções, Maureen escreve: As Estações é um filme de arqueologia. Escava a paisagem, as vozes e os gestos dos habitantes do Alentejo para encontrar os vestígios de uma história comum, feita de guerras e revoluções, medo e resistência, permanência e metamorfoses.”As Estações teve a sua estreia mundial na Seleção Oficial – Competição Internacional do Festival de Cinema de Locarno 2025 e, em Portugal, na Competição Internacional do Doclisboa 2025. Tem produção da portuguesa O Som e a Fúria, em coprodução com a francesa Norte Productions, a espanhola Filmika Galaika e a austríaca Nabis Filmgroup. Vale muito a pena ser visto.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ge1t
Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
Jorge Pereira
as-estacoes-uma-escavacao-temporalA realizadora escavou o tempo fílmico aliado ao tempo da vida, fazendo coexistir passado, presente e futuro.