O cinema de Laura Poitras emerge do pós-11 de Setembro e instala-se num território onde o poder, a vigilância e a resistência se entrelaçam. Ao longo de mais de duas décadas, a sua obra acompanha figuras e temas que expõem sucessivas camadas de complexidade: realidades ocultas sob a névoa do que o Estado rotula como “informação sensível” e que, por isso mesmo, deve ser controlada sob o manto de uma abstração que tudo justifica e nada explica: a segurança nacional.

O gesto e a lógica da cineasta não é apenas a de uma cronista, mas também de uma analista forense que vasculha, anota, interroga e revisita arquivos, desmontando teias de segredos, que depois são remontadas e convertidas em exercícios cinematográficos normalmente tensos, de imersão prolongada. Poitras olha para cada detalhe como uma pista para um mecanismo maior e, ao fazê-lo, expõe não apenas as fragilidades de quem enfrenta o poder, mas também as fissuras internas de um sistema com os seus mecanismos de autocontrolo ainda em debate.

A sua “trilogia do 11 de Setembro” — My Country, My Country (2006), The Oath (2010) e Citizenfour (2014) — observa a guerra ao terror por ângulos complementares: o quotidiano de um médico em Bagdade; as derivas de um ex-segurança, agora taxista de Bin Laden, mirando Guantánamo noutra linha; e a revelação de Edward Snowden num quarto de hotel, onde a própria realizadora entra em cena e transforma jornalismo ao vivo em cinema (e vice versa). 

Essa contaminação entre forma documental, jornalismo e arte encontra os protocolos de segurança (encriptação, proteção das fontes e disciplina de comunicação) em Risk (2016), um retrato tenso do ecossistema à volta de Julian Assange, fundador da Wikileaks, e em All the Beauty and the Bloodshed (2022), onde desloca o foco para a arte como ativismo ao acompanhar Nan Goldin na campanha contra a família Sackler no contexto da crise dos opióides. 

Seymour Hersh

Olhando de forma concreta para o cinema de Poitras, denota-se que esta requisita primeiro o ético e só depois o estético. O jornalismo chega-nos filtrado pelo cinema — e, inevitavelmente, pela sua autora, enquanto as figuras que habitam o seu universo são, a um tempo, rochas de resistência e minúsculos grãos de areia que emperram a engrenagem do poder, uma máquina que tenta controlar o fluxo da informação que chega ao público. Poitras retira, peça a peça, bloco a bloco, a máscara das aparências de que a autoridade consegue se proteger dos próprios impulsos. O resultado é um cinema e, porque não, jornalismo de urgência, politicamente consequente.

Nesse caminho, a sala escura transforma-se tanto numa redação de jornal, como num tribunal em que se apresentam evidências e acusações criteriosamente justificadas, com a privacidade, liberdade e responsabilidade coletiva a serem debatidas com nomes, rostos e provas.

Embora menos fulgurante que nos exercícios anteriores, especialmente na sua forma de thriller, Cover-Up (Seymour Hersh: Em Busca Da Verdade) segue o mesmo sentido, com Poitras a visitar novamente terrenos movediços na interseção entre o poder que encobre e quem insiste em dizer a verdade. 

Coassinado com Mark Obenhaus e centrado em Seymour Hersh — jornalista premiado com o Pulitzer, autor de investigações que desmontaram abusos militares e políticos nos Estados Unidos —, o filme prolonga o rigor metodológico da cineasta, começando na proximidade ética com a fonte, prosseguindo na verificação minuciosa e aplicando uma uma montagem que resiste à pedagogia (e a ao didatismo) apressada/o. 

Em Veneza, onde o filme estreou, Poitras sintetizou o que a move: os problemas — e, sobretudo, as pessoas que dizem a verdade perante o poder. Quid animam movet?  Apenas a coragem de quem fala quando o silêncio seria mais cómodo. 

Essa ambição reflete-se aqui, através do desejo de percorrer meio século de violência do Estado e de múltiplos encobrimentos, convertendo a biografia profissional de Hersh num mapa de zonas cinzentas de sucessivos governos que se sustentam e se argumentam na defesa da democracia, mas que não se importam de sair dela – temporariamente – por questões securitárias, frequentemente impondo a cultura do medo e a tentativa de controlar a narrativa.

A resistência inicial de Hersh em aceitar ser objeto de um filme — um processo que levou duas décadas até à rendição — revela muito do gesto e do método de Poitras, bem como da forma como e incorpora essa dificuldade no próprio filme, transformando-a em matéria narrativa através das palavras do seu protagonista, catalisador do que descobrimos ser um estudo mais vasto. 

Seymour Hersh

O jornalista, que atravessou inúmeros conflitos da história norte-americana, reconhece que foi a persistência e a seriedade de Poitras que o convenceram e, juntos, com Oberman também na equação, constroem um relato que por entre notas pessoais, entrevistas, documentos e material de arquivo revela duas linhas de pensamentos: o labor paciente do jornalismo de investigação; e o ciclo de impunidade que protege as instituições sempre que a verdade ameaça o poder.

Nesse sentido, Cover-Up não oferece nunca conforto, mas sim matéria para o espectador trabalhar: ligar casos, épocas e mentiras para perceber como se fabrica o silêncio de forma sistémica. 

O filme também não pretende “explicar” Hersh, mesmo quando entra em alguns pontos cruciais da sua vida, na intersecção com o pessoal, mas prefere filmar o seu trabalho, método e intransigência. Trabalho esse que seria impossível sem as fontes que alimentaram as suas peças, além dos dossiers e testemunhas que desmentem versões oficiais das guerras do Vietname, do apoio norte-americano a regimes totalitários na América do Sul, sem esquecer a invasão e tortura no Iraque. E, num olhar de conexão com a atualidade, Gaza e a erosão de uma “narrativa justa” também aparece em cena, reforçando a urgência do filme, sem nunca ceder ao panfleto. 

No final, Cover-Up reconcilia o jornalismo como prática artística da verdade e o cinema como um dispositivo de responsabilidade. Entre ambos, permanece Hersh — o homem, o jornalista, o inquieto que não cessa de perseguir a verdade. E mesmo que essa busca seja por ele – da vaidade, da ambição, e do desejo de ser o primeiro a ver o que outros não veem, o resultado é um bem comum: a lucidez no meio da fragmentação. 

Entre os que brilham, é sempre preciso alguém para continuar a ver no escuro.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
cover-up-laura-poitras-une-jornalismo-e-cinema-num-ensaio-sobre-poder-verdade-e-responsabilidade-coletiva Cover-Up reconcilia o jornalismo como prática artística da verdade e o cinema como um dispositivo de responsabilidade. Entre ambos, permanece Hersh — o homem, o jornalista, o inquieto que não cessa de perseguir a verdade.