Num certame em que Cinema Kawakeb já lançara um olhar curioso sobre a lenta agonia de uma sala de cinema no centro de Amã, na Jordânia — com funcionários suspensos na incerteza do futuro —, eis que o Doclisboa, novamente na competição internacional, apresenta um novo título da mesma linhagem: o argentino La noche está marchándose ya (The Night is Fading Away).
O cenário é igualmente apocalíptico. Javier Milei vence na Argentina e a sua famosa “motosserra” começa, como prometido, a desbastar os mecanismos de apoio cultural. As políticas económicas produzem réplicas generalizadas e, no Cinema Municipal de Córdoba, os cortes orçamentais reduzem o número de sessões diárias e o número de projecionistas contratados. Existem dois, mas apenas um pode continuar. Ao outro resta aceitar a proposta da gestão: tornar-se vigilante noturno do local.
Antes de avançarmos na análise do filme, convém separar as águas: Cinema Kawakeb é um objeto de cariz documental que se aventura numa forma híbrida, funcionando também como guia de “como fazer” um filme, sem fugir à encenação de certas cenas. Já La noche está marchándose ya é ficção inspirada numa situação política de medo real, mas não concretizada tal como está no ecrã: a sala de cinema e as pessoas retratadas estão, na prática, em posições de vida diametralmente opostas ao que vemos no ecrã — a sala real é muito ativa, com público transversal, dos mais novos aos mais velhos. O ator que vemos no ecrã como o projecionista transformado em vigilante, é projecionista na vida real.
Sem reabrir uma discussão já muito batida (e, para mim, encerrada) sobre a evolução dos festivais de cinema documental — isto é, a ideia de que deveriam projetar apenas documentários —, tanto o filme jordano como o argentino são, para lá da forma ou do género, excelentes exemplos do retrato do cinema enquanto espaço físico e mental de memória; sublinham a importância das salas (e do próprio cinema) como forma cultural e lugar de partilha, bem como os percalços de quem trabalha na exibição em tempos de uma guerra difusa de “ataque ao cinema” vinda de vários lados: novos hábitos de espectador, acentuados pela pandemia; pressão do streaming; e governos ultraliberais que tratam a cultura como detalhe ideológico a render-se ao mercado.

Filmado num preto-e-branco ora melancólico, ora assustador — e com um guião que visita a comédia e o melodrama social, entra no suspense e até no potencial romance —, o título avança sempre pelas vias da imprevisibilidade: o projecionista transformado em segurança explora os recantos físicos da sala municipal, os afetivos (a partir dos filmes que vê no grande ecrã) e descobre novos espaços e personagens que com ele vão partilhar as noites.
O resultado é um retrato tenso e terno, em que o edifício-cinema se torna uma espécie de casa assombrada, repleta de fantasmas da cinefilia — moribundos nos novos tempos —, mas também um abrigo, um templo e um castelo: metáfora de um país à deriva nos seus valores e prioridades, e de uma cinefilia que resiste e usa as armas que tem (fazer cinema).
“O cinema é a minha casa. Acho que sempre vivi dentro dele.”, dizia Agnès Varda; no caso do projecionista solitário deste filme, essa casa é literal. A ganhar uma miséria, sem companheiro com quem dividir despesas, esse homem usa a sala municipal como dormitório, sala de estar e até “pátio” — para fumar o seu cigarro e beber uma cerveja. O seu sistema de home video é, efetivamente, um grande ecrã; e muitos se juntam a ele nessas noites, como um grupo de sem-abrigo que a polícia tenta “varrer” da zona, além de uma amiga, estrela do OnlyFans, que descobre que criar conteúdos para adultos numa sala com um ecrã gigante lhe rende mais dólares.
A dupla Ezequiel Salinas e Ramiro Sonzini — o primeiro vindo sobretudo da direção de fotografia, o segundo com créditos de montagem e realização — junta-se para fazer cinema dentro do próprio cinema, deixando a câmara traduzir o amor pelo lugar, pelo meio e pela memória — não apenas dos filmes, mas do que eles representam para quem os vê. E, felizmente, nunca o fazem como uma arte morta: antes como uma pólis que, embora vá sobrevivendo entre ruínas, mantém a sua resistência — e os seus resistentes.
E, nesse aspeto, ligamo-lo a outro filme exibido no Doclisboa: Videoheaven, de Alex Ross Perry, um objeto de arqueologia sentimental ensaísta que usa uma narração sobre imagens de mais de uma centena de filmes para contar a história dos videoclubes como uma espécie de fé e civilização antiga desaparecida. Em La noche está marchándose ya o cinema e a sala de cinema ganham também essa dimensão.
Um belíssimo filme, cheio de amor e nervo.




















