Celebrado em setembro com o Leão de Ouro pela carreira, Werner Herzog aproveitou a estadia no Lido para apresentar o seu novo projeto, Ghost Elephants — um documentário que, em vez de ser “sobre” elefantes, se assume como uma excursão à sua mitologia e àqueles que os “caçam”. E o termo “caça” surge entre aspas porque, aqui, a perseguição tem objetivos científicos (além de egoísticos), mas fora do espectro do desporto macabro daqueles que um dia caçaram e mataram por glória, como Róbert Fénykövi, que em 1955, no sul de Angola, perseguiu e assassinou com 18 tiros o maior elefante africano já registado.
Desta vez, não há um caçador letal que fez capa da Sports Illustrated, mas sim Steve Boyes, biólogo da conservação e ornitólogo sul-africano, que Herzog acompanha numa expedição entre a Namíbia e as terras altas de Angola. Ainda assim, há pontes subtis entre ambos — a começar pelo ego humano e pela obsessão em descobrir se existem mais elefantes como aquele que Fénykövi matou e transformou em troféu. Uma obsessão não muito diferente da caça à baleia branca que Moby Dick proporcionou.
Alguns dilemas éticos não são esquecidos por Herzog, mas também não são aprofundados — mesmo que o realizador consiga afastar-se da narrativa clássica do homem branco que parte algures para “descobrir” algo (supostamente) para o bem da humanidade.
O filme parte de “Henry”, o tal elefante gigante que Fénykövi caçou e que foi transformado em peça de museu em Washington D.C., pelo Smithsonian. É a partir dessa relíquia que Ghost Elephants começa, com Boyes a tentar encontrar um descendente desse animal.
Herzog filma o percurso como uma busca, articulando-o através de diálogos que alternam entre o discurso científico e o olhar mitológico, mas também recorrendo à sua narração característica, onde não faltam registos de humor. Ciência, experiência e crença aqui não colidem — caminham lado a lado na procura do que pode ser real ou apenas lendário. Essa união ganha força quando o realizador se aproxima das comunidades bosquímanas que habitam a região onde as supostas criaturas ainda persistem. É precisamente dessa comunidade que surge o batedor principal da expedição, e Herzog aproveita o movimento de o seguir — a forma como lê o terreno, escuta os sinais, interpreta as pegadas, lança sons — para construir também um retrato etnográfico de um povo, das suas histórias e da sua relação ancestral com os elefantes. É ele, juntamente com o angolano Kerllen Costa e outros batedores locais, quem tentará dar a Boyes a resposta final: mito ou realidade?
Apesar de ter o selo da National Geographic nos créditos, Herzog avisou desde cedo que não estávamos perante um documentário sobre a vida selvagem. Na verdade, o filme tem essa componente, mas de forma pouco convencional, pois é atravessado por observações paralelas que tornam a sua categorização como simples “filme de natureza” algo, no mínimo, redutor.
Longe do mero naturalismo — e consciente de que também estamos dentro de um processo de fazer cinema — Ghost Elephants procura compreender o próprio gesto da busca: o que significa procurar e o que essa procura nos devolve. Herzog procura o seu filme; Boyes procura os elefantes. Por isso mesmo, quando o cientista admite já não saber se realmente quer encontrá-los — tornando o sonho real — ou, pelo contrário, prefere não os encontrar, preservando o mito, essa indecisão revela o seu eu, o peso do ego. No fundo, esta busca, seja de Boyes ou de Herzog, não é pelos animais. Até porque, convenhamos, os elefantes estariam mais seguros se os humanos os dessem por extintos — e eles continuassem a existir longe do nosso olhar.
O que Herzog realiza aqui — ainda que de forma mais contida e menos explosiva que no passado — é uma reflexão sobre a condição humana e o seu impulso constante de compreender o incompreensível e de transformar o acaso em destino. As suas personagens — e, de certo modo, os seus próprios filmes — refletem uma obsessão controladora muito humana. De Fitzcarraldo (1982) a Aguirre (1972), passando por Grizzly Man (2005) ou Encounters at the End of the World (2007), e sem nunca esquecer a dupla Into the Inferno (2016) e The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft (2022), Herzog filma a natureza, com os seus mistérios, como espelho das nossas fixações e ambições.




















