Com carreira e vida divididas entre os EUA e França, a dupla Lola Bessis e Ruben Amar rodou e viveu anos em Nova Iorque, ficando no radar com Swim Little Fish Swim (2013), um filme com personagens à deriva. Com Silver Star, regressam ao território anglo-saxónico, mas trazem um olhar europeu sobre a mitologia do road movie, com ecos de Thelma & Louise e um foco nas tensões entre identidade, classe social, desigualdade racial e crise familiar numa América também ela à deriva.
Billie, recém-saída da prisão e “reencenadora” da Guerra Civil, descobre que os pais podem perder a casa por causa de uma hipoteca feita para pagar despesas médicas. Desesperada, tenta assaltar um banco. É aí que se cruza com Franny, uma adolescente grávida e impulsiva que — também ela — procura, sem sucesso, um empréstimo bancário. Billie faz de Franny refém, mas, como o dinheiro também dava jeito à segunda, de sequestrada passa rapidamente a cúmplice pela estrada fora.
É inegável que Silver Star deve muito ao cinema da Nova Hollywood dos anos 1970 e ao indie forjado a partir das décadas de 1990 e 2000, muito impulsionado pela força recente de festivais como o Sundance e, mais tarde, o SXSW. Foi neste último que a dupla “explodiu” com Swim Little Fish Swim, enquanto Silver Star iniciou o seu percurso no Festival de Cinema Americano de Deauville. Agora está em exibição na 3.ª edição do MyMetaStories.
Assente em duas interpretações seguras e carismáticas — Troy Leigh-Anne Johnson e Grace Van Dien —, como duas foras-da-lei em ruptura e movimento, com o país como espelho do conflito interior e a paisagem como extensão dos seus dramas, Silver Star leva o espectador numa jornada física e psicológica: entre perseguições e fugas às autoridades, a dupla vai revelando as condições sociais que as empurraram até ali, bem como a estreita conexão a tensas relações familiares.
Esteticamente, o road movie é atravessado pelo buddy film e pelo drama social, pontuado por humor negro e picos de tensão — ora na estrada, ora no interior das próprias personagens, repletas de cicatrizes internas.
E embora não seja um filme que invente nem reinvente a roda — na história, nas personagens ou no arranjo visual e sonoro —, a dupla entrega um exemplar sólido dentro da tradição do road movie em que se insere e das limitações orçamentais óbvias que tem.



















