Um dos últimos registos anexados à ficha do estudante Honestino Monteiro Guimarães (1947–1973) no aparelho repressivo do Estado, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), refere-se a uma notícia de 7 de fevereiro de 1975, publicada no jornal Folha da Tarde. O texto reproduzia um comunicado oficial do Ministério da Justiça da ditadura brasileira, empenhado em dissolver o discurso da Esquerda. Segundo o documento, era “necessário expor a publicidade que a imprensa vem dando (como matéria paga) a pessoas desaparecidas, entre elas o nominado acima, militante da Ação Popular (AP), dono de um vasto registo de atividades subversivas… condenado a uma pena de 12 anos de reclusão em 1972”. O comunicado afirmava ainda que o referido cidadão “encontra-se foragido”. O dado poético — ou, melhor dizendo, humano — que não figura nesses autos oficiais, pode ser acrescentado por uma estrofe da canção Cidadão da Mata, composta por Arnaud Rodrigues (1942–2010) e Chico Anysio (1931–2012), em 1974: “A esperança não é a última que morre / Quem morre por último é o herói / E o herói é o cabra que não teve tempo de correr.” O personagem da longa-metragem devastadora de Aurélio Michiles não correu; ficou. Depois, “caiu” — na clandestinidade e no cárcere. Feito fénix, renasceu como símbolo. E como filme.
Geologia foi o curso em que Honestino ingressou na Universidade de Brasília, em 1965. Após a promulgação do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em dezembro de 1968, saiu da capital e passou a viver na clandestinidade, em São Paulo, com a sua companheira, Isaura. Entre 1969 e 1971, exerceu, simultaneamente, funções de dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de militante da AP. No final de 1971, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Tinha então 26 anos quando foi preso por agentes do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). O dado fulcral da sua biografia — preservado em registos como o do Memorial da Resistência — é simples e trágico: “desde então, permanece desaparecido.”
O tema das desaparecimentos é caro a Aurélio Michiles, cineasta amazonense responsável por obras preciosas como Que Viva Glauber (1991). Por vezes fala do risco do esquecimento das pessoas, como em O Cineasta da Selva (1997) e Tudo por Amor ao Cinema (2014). Outras vezes, aborda o apagamento dos registos de genocídios, como em Segredos do Putumayo (2020). Honestino entrelaça esses dois caminhos: dá voz a familiares, amigos e companheiros de luta, e, em paralelo, encontra nos dispositivos da encenação — impulsionados pela atuação vulcânica de Bruno Gagliasso — um modo de transformar a memória em ritual de resistência, calvário e saudade.
O heroísmo invocado na canção de Arnaud e Anysio, lançada no álbum Baiano e os Novos Caetanos há 51 anos, não tem nada de greco-romano. Não é o heroísmo de Hércules e dos seus 12 trabalhos. É o heroísmo da resistência e da persistência — aquele que se ergue da ruína. Está em sintonia com a máxima do cineasta irlandês Jim Sheridan: “Na prisão, o silêncio é o nosso maior companheiro.” Sheridan, realizador de Em Nome do Pai (Urso de Ouro, 1994), também contou histórias de militantes injustamente encarcerados. E é precisamente o cárcere que serve, politicamente, como arena e como palco para a gira combativa de Michiles. A montagem taquicárdica de André Finotti costura com precisão as lacunas verbais e visuais, transformando palavras e silêncios em matéria de memória. Em tempos de guerra, a comunicação — reduzida a fragmentos — torna-se um campo de batalha.
Para Michiles, evocando Mao Tsé-Tung (1893–1976) e o geógrafo brasileiro Josué de Castro (1908–1973), o regime militar foi um tempo de trincheiras. Honestino foi um soldado da democracia, como dizem os que o conheceram, em depoimentos tecidos sem o tom burocrático de um verbete da Wikipédia. Tangenciado no filme Barra 68 (2000), de Vladimir Carvalho (1935–2024), Honestino era até agora uma figura citada em aulas e manuais. Michiles oferece-lhe, finalmente, protagonismo — numa biopic que usa o peso histórico da ditadura como moldura. A trajetória individual de Honestino articula-se com a memória coletiva dos movimentos estudantis das décadas de 1960 e 1970. O filme é um balanço coral, em sintonia com o espírito do tempo que recria, e a banda sonora de Flávia Tygel — talvez a mais inspirada de toda a Première Brasil de 2025 — não sublinha emoções, mas aclimata o olhar. O colorido intenso da fotografia de André Lorenz Michiles amplifica o pulso de um documentário que se impõe como peça essencial do memorial cinematográfico das Américas sobre os regimes de farda e silêncio. A interpretação de Bruno Gagliasso é central para as conquistas simbólicas e formais da obra: o seu desempenho é incendiário e lúcido, capaz de reabrir o debate sobre a reação estudantil — hoje adormecida —, mas também de o povoar de dúvidas, fragilidades e contradições. É o trabalho de um ator em plena maturidade, que compreende que resistir é, antes de tudo, lembrar.




















