Deixando para trás as torres do 19.º arrondissement e a Place des Fêtes para assumir o papel de monitoras numa colónia de férias infantil, Ma Frère apresenta-se como uma continuação delicada, orgânica e deliciosa da série curta, criada para a web, Tu préfères?, lançada em 2020 pelas cineastas Lise Akoka e Romane Guéret, responsáveis pelo premiado Les Pires (Os Piores, 2022), vencedor do Un Certain Regard em Cannes.

Se em Tu préfères? conhecíamos Shaï (Shirel Nataf) e Djeneba (Fanta Kebe) aos 14 anos, através de um jogo de perguntas e dilemas — “Preferes isto ou aquilo?” —, aqui encontramo-las cinco anos depois, com a sua relação consolidada, sempre atravessada por questões familiares. Shaï vive uma relação escondida com o seu amigo Ismaël (Zakaria-Tayeb Lazab), vigiada à distância por um irmão controlador que exige comprovar a sua virgindade. Djeneba, por sua vez, enfrenta uma outra forma de vulnerabilidade: a negligência da mãe e a responsabilidade de cuidar, em silêncio, do irmão bebé – enquanto quer viver a sua própria vida.

Entre os desafios individuais e a convivência com um grupo de crianças que também transporta as suas próprias inquietações, Ma Frère prolonga o olhar sensível e atento de Lise Akoka e Romane Guéret, movendo-se entre o realismo emocional e o naturalismo social. O filme assenta numa ética do real construída na fronteira entre o documentário — pela sua autenticidade e estética — e a ficção — pela estrutura e pela construção dramática. Nesse terreno, que prolonga a tradição do realismo social francês, as realizadoras recusam a distância sociológica, optando, contudo, mais pela observação desta através dos gestos e conversas não expositivas, em vez da denúncia direta, captando as fragilidades e a intimidade quotidiana como modo de revelar o humano sem o reduzir a um discurso político panfletário.

Na sua maior conquista, o filme conduz o espectador de volta à infância e à adolescência — territórios frágeis onde a amizade, a descoberta e a perda se entrelaçam. Regressam também Zakaria-Tayeb Lazab e Mouctar Diawara, vindos de Tu préfères?, agora em papéis paralelos, numa narrativa que mantém o foco no universo feminino e nas dores – por vezes silenciosas, por vezes ecoadas em gritos, choros e amuos – do crescimento, naquilo a que depois enquadramos como idade do amadurecimento e início da vida adulta.

Com diálogos sempre ricos e naturais na sua progressão, Akoka e Guéret conseguem fazer um quadro panorâmico de gerações que não se imiscuem de confrontar os mais velhos, seja através de confrontos familiares, seja através de discussões que até pegam em temas extremamente pesados. Exemplo disso é quando os miúdos são “introduzidos” aos horrores do mundo em que vivem, como o Holocausto, com uma sobrevivente a contar-lhes a sua horrível experiência. Entre a curiosidade e inocência, mas sempre com respeito e a precisão e a ingenuidade de quem ainda não consegue compreender totalmente o que lhes está a ser contado. Esse diálogo entre as duas gerações, entre a pureza e dureza, é absolutamente fascinante.E fascinante é mesmo o adjetivo predileto para descrever este pequeno grande filme, que não só expande com sucesso o universo da série Tu preferes, como cria um objeto independente de rara sensibilidade e delicadeza que coloca Lise Akoka e Romane Guéret como uma cronista da juventude francesa moderna.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/zuhs
Pontuação Geral
Jorge Pereira
ma-frere-cinema-frances-e-juventude-entre-o-naturalismo-social-e-o-realismo-emocionalAkoka e Guéret conseguem fazer um quadro panorâmico de gerações que não se imiscuem de confrontar os mais velhos, seja através de confrontos familiares, seja através de discussões que até pegam em temas extremamente pesados.