Uma distância de quatro dias separa o penálti falhado pelo jogador italiano Roberto Baggio, no Mundial de 1994 — que assegurou o tetracampeonato brasileiro — da morte do traficante Orlando Jogador, o Don Corleone do subúrbio do Rio de Janeiro. Ele foi assassinado em 13 de julho e, no dia 17, jogou-se a partida responsável pela consagração sul-americana nos relvados dos EUA. Tais datas não são citadas no épico de três décadas construído magistralmente por Murilo Salles em A Vida de Cada Um, mas servem como módulos vetoriais da realidade que sustenta cada quadro de um exercício raro do Brasil pela cartilha do chamado “filme de máfia”. Documentarista pontual (e algo experimental, como se viu em Mario de Andrade, O Turista Aprendiz), Murilo talvez não reconheça que tenha feito The Godfather carioca, mas fê-lo. É um filme definitivo (na sua obra e na trajetória audiovisual do seu país em compreender a ilegalidade) não apenas pela opção de entender a formação de uma célula criminosa epitélio adentro, mas por destrezas técnicas que faltam a muita produção de grande orçamento latino-americana. A montagem de Eva Randolph é de uma precisão suíça, mas de brasilidade latente.

De arranque, uma sequência em que o epicentro do conflito, o oficial da Polícia Militar (PM) Domingos Macedo (Caco Cicoler, em atuação colossal), ensina ao filho pequeno como se colocam balas num revólver, engatilha um dispositivo de thriller na narrativa. Murilo já o fizera no passado, e nas cercanias do noir: Faca de Dois Gumes, que lhe rendeu o Kikito de Melhor Realização no Festival de Gramado, em 1989. Na sequência, o vencedor do Leopardo de Bronze de Locarno por Nunca Fomos Tão Felizes (1984) enveredou por uma triagem das desconexões entre “asfalto” e “favela”, jargões de natureza sociológica para explicar os conflitos das redes populacionais periféricas do Rio de Janeiro. Notabilizou-se sobretudo por Como Nascem os Anjos, exibido na Berlinale de 1996 e encarado, à sua época, como um alerta. Naqueles dias, o Brasil fervia com confrontos entre a PM e o tráfico por todo o RJ, no agravamento das cizânias na região chamada Complexo do Alemão, num perímetro de bairros da Penha a Bonsucesso, pós-assassinato de Orlando Jogador. Ali, Murilo mostrou que os dispositivos de controlo da aristocracia, instalada na Zona Sul da Cidade Maravilhosa, não captavam o que havia de demasiado humano à sua volta. Filmou esse desequilíbrio mais uma vez em Seja o Que Deus Quiser!, com o qual venceu a Première Brasil de 2002. Em todos esses trabalhos há um tom de thriller, muito particular, que despedaça os lugares-comuns urdidos por medalhões hollywoodianos e pelo polar francês. Não importa o tiro, importam as vítimas.

Numa entrevista ao C7 sobre O Agente Secreto, concedida no Festival de San Sebastián, Kleber Mendonça Filho explicou que a relação do cinema brasileiro com o thriller — género no qual se lança, em diálogo com marcos da Nova Hollywood, como William Friedkin — sempre foi muito patrulhada pelos seus observadores. A vigilância sugere que o exercício desse formato fosse uma importação de algo que não seria legítimo nas Américas de colonização ibérica. Segundo Kleber, isso deu-se pelo menos até Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) chegar, mas a vigilância prossegue. Apesar dela, Murilo foi à essência do filão e de lá trouxe a tensão, a dubiedade e a perceção de que a sociedade é refém de forças num estado de exceção (como apontou o filósofo Giorgio Agamben), em que o Poder é exercido por microfísicas silenciosas, nas franjas das dinâmicas legais. Daí vem o Macedo de A Vida de Cada Um.

No enredo, há um prólogo em 1989, quando o polícia já não tem a sua esposa (Carol Chalita), a quem expulsou de casa por abuso de força e bofetadas. Ficaram dois filhos, criados pela avó (Susanna Kruger, numa delicada composição de silêncios). Seguimos essa família ao longo de 32 anos. A trama passa pelo já citado 1994, gravita entre 2004 e 2014 (ano da goleada por 7–1 no Mundial, no jogo Alemanha x Brasil) até chegar a 2016, ano do Golpe no Brasil, com direito a resgate da votação do impeachment de Dilma Rousseff. A era Bolsonaro foi chocada ali, qual ovo da serpente, quando o regime de governo do Brasil deixou de ser presidencialista e se tornou… miliciano. A milícia é a formação mafiosa de farda — algo que o cinema retratou em Cop Land (1997), de James Mangold, e El Bonaerense (2002), de Pablo Trapero.

Bianca Comparato esbanja fúria em “A Vida de Cada Um”

É do Morro do Andaraí que esse panóptico, montado como um puzzle de encaixe perfeito por Eva Randolph, se desenha no ecrã. Macedo é o Walter White deste Breaking Bad num Rio não estequiométrico, com o tique nervoso de mexer os cubos de gelo do uísque com os dedos. Autoridade fardada, pôs a mulher fora de casa a pontapés, criou os dois filhos no garrote, impôs disciplina à vizinhança e ocupou espaços que antes eram baldios. Só não instalou uma Unidade de Polícia Pacificadora no coração da filha, Flávia — o papel mais denso já oferecido à atriz Bianca Comparato no grande ecrã. O primor da sua atuação rearranja o que parecia ser um action movie para uma relação parental com roupa suja a lavar a sangue.

Vemos Flávia em diferentes fases da vida, até que, já rompida com o pai e pelos seus trinta e poucos anos, decide lançar-se no comércio de cocaína. Enredar homens na sua teia é um dos seus poderes, no espelho do código genético ilícito herdado de Macedo que, já mais velho, refastelado numa banheira de espuma, manda no Rio como se fosse um Corleone.

Murilo não deixa nada à superfície. Cada personagem em cena é esquadrinhada até às suas profundezas, numa Comédia Humana (à moda de Balzac) em que os muitos vértices do processo digestivo das entranhas milicianas fagocitam o resquício de ética que sobra numa população carente de amparo estatal. Não há heróis neste Goodfellas suburbano, iluminado ainda pela atuação de Ivan Mendes, que põe o filme no bolso a cada intervenção do seu personagem, o polícia apaixonado Geraldo, doidinho por Flávia. É um “Gooffellas” que fita os protagonistas nos olhos, com closes das suas expressões agoniadas, sem saída, com Cicoler num devir De Niro. Não há heroísmo onde há metástase do crime, pois o cancro irrefreável da acumulação ilegal trava as centelhas de ordem.

Num artigo para o periódico Nuovi Argomenti, Agamben ajuda a ler o arranjo que A Vida de Cada Um traduz como cinema: “À primeira vista, a exposição da relação entre violência e política pode parecer uma tarefa contraditória. Segundo uma tradição que remonta às origens da história europeia, violência e política de facto se excluiriam reciprocamente. Os gregos, que inventaram quase todos os conceitos de que atualmente fazemos uso para exprimir a nossa experiência da política, designavam precisamente com o termo ‘pólis’ o modo de vida fundado sobre a palavra e não sobre a violência. Ser político, viver na pólis, significava antes de mais aceitar o princípio de que tudo fosse decidido através da palavra e da persuasão, e não com a força e a violência.” A milícia de Macedo nasce do verbo, do “Parou aí, neguinho!”, gritado por ele num espasmo do seu racismo. O distintivo garantiu-lhe liberdade para vigiar e licença para punir. Só que acrescentou mais um termo aos seus deveres: “enriquecer”. Ao conjugá-lo, ergueu um reinado — mas desfez os seus amores. Murilo, apoiado numa aeróbica direção de fotografia de Bia Mauro, narra a queda dele… mas também a queda de uma metrópole, a queda de um Brasil.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/cabb
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
a-vida-de-cada-um-o-estado-de-excecao-de-um-brasil-mafioso A montagem de Eva Randolph é de uma precisão suíça, mas de brasilidade latente.