Antes de brindar o cinema com as lutas de espada que mais desafiaram as leis da gravidade em todo o audiovisual, o clássico Scaramouche (1952) oferece ao público uma epígrafe do escritor italiano Rafael Sabatini (1875-1950), afiada como as lâminas de aço da sua narrativa: “Nos tempos em que o mundo se mostra louco, herói é aquele que sabe manter o sentido de humor.” Esse é o ethos de heroísmo por trás de 27 Noches, uma comédia dramática funcional, mas sem calor, nas raias do insosso, escolhida para abrir o 73.º Festival de San Sebastián, em disputa pela Concha de Ouro. La Unión de Los Ríos, produtora responsável pelo fenómeno vencedor do Globo de Ouro Argentina, 1985, é a empresa por trás da longa-metragem, já assegurada pela Netflix, para onde chegará a 17 de outubro, pelo menos na fatia hispânica do streaming. O ator Daniel Hendler assina a realização e assume um dos papéis centrais, ao lado de Marilú Marini, numa simbiose de atuações equilibrada.
Ele é uruguaio, mas notabilizou-se em Buenos Aires com O Abraço Partido (2004), pelo qual foi premiado na Berlinale, e trabalhou no Brasil em Cabeça a Prémio, de Marco Ricca, em 2009. A sua estreia como realizador de longas aconteceu há 15 anos, com Norberto Apenas Tarde (2010). Este ano volta a Donostia com outro título, na secção Horizontes Latinos: Un Cabo Suelto, exibido em Veneza no início do mês, que esbarra em problema semelhante ao de 27 Noches. Em ambos os casos, tudo está no lugar certo (as provocações sociológicas, as inquietudes do elenco, os diálogos ágeis), mas falta a transcendência da estética de “gozo verbal” habitualmente encontrada no cinema argentino, como nos filmes de Daniel Burman ou Juan José Campanella.
O componente político de 27 Noches poderia travar o seu humor, mas não acontece. Trata-se de uma reflexão combativa sobre os cuidados psiquiátricos, criticando a imposição de internar quem não se enquadre nas normas padronizadas da sociedade. É também por isso que um artesão dos dramas sociais e geopolíticos, como Santiago Mitre (realizador de Paulina e La Cordillera), surge como produtor, para além do seu explícito entusiasmo pelo trabalho de Hendler em Norberto Apenas Tarde.
A abordagem que o ator-cineasta dá à Psiquiatria na América do Sul tem origem em factos reais que encontrou no romance homónimo de Natalia Zito. 27 Noches segue um formato dramatúrgico que teóricos do audiovisual (como José Carvalho) definem como 1-1, por tratar da transformação consecutiva de duas personagens amalgamadas por um mesmo conflito. Nesta dinâmica, o que afeta uma repercute na outra, em igual medida. No caso, o que muda na rotina da artista e aristocrata Martha Hoffman (interpretada por Marilú Marini) altera também o quotidiano do Dr. Casares (Hendler), encarregado de analisar a sua psique.
Martha é a matriarca excêntrica e fabulosamente rica de um clã de mulheres. É internada à força numa clínica pelas duas filhas, após o desaparecimento de uma obra de arte da sua coleção. Perito em diagnósticos clínicos, Casares é chamado para determinar se a decisão das filhas em levar a dionisíaca senhora para um sanatório é uma manobra calculada para assumir o controlo da fortuna ou se Martha sofre, de facto, de uma demência que representa perigo para si própria e para os outros. Na história médica argentina, o drama desta mulher esteve na origem de mudanças fundamentais na legislação do país em matéria de saúde mental, que agora proíbe a internação involuntária de pessoas neste tipo de instituição.
Hendler aborda o tema com delicadeza e instala-se nos códigos da dramédia com evidente intimidade, bem amparado na sua enorme destreza como ator. A fragilidade reside no guião, que pouco se aprofunda nas personagens para além da esgrima de colaboração mútua que lhes permite ser quem realmente são… no divã… na vida. Martha celebra a sua liberdade; Casares é confinado na sua quietude. Juntos formam um vulcão. Sabemos que há magma dentro deles, mas a erupção nunca acontece. Mesmo que a narrativa explore os satélites afetivos de ambos (quase sempre de forma limitada, incorrendo em arquétipos caricaturais no trato com as filhas de Martha), pouco se avança na cartografia dos seus mundos. Nada sai da superficialidade, apesar das sólidas interpretações de Marilú e Daniel — o que se torna ainda mais incómodo face a uma direção de fotografia burocrática.




















