Uma das maiores falácias (tretas) do sistema neoliberal é a crença de que o sucesso depende apenas do esforço individual: se alguém se dedica o suficiente, alcançará os seus objetivos; se falhar, é porque não tentou o bastante. Esta narrativa, repetida até à exaustão com a ajuda de outras historietas como meritocracia e self-made man, ignora fatores estruturais como heranças, redes de apoio, classes sociais, género ou o racismo. Assim, o insucesso é visto como uma espécie de falha moral, deslocando a responsabilidade do coletivo para o indivíduo e perpetuando a ideia de que a falha é do “eu”.
Este prólogo é fundamental para mergulhar em The Cost of Heaven (Gagne ton ciel), filme de Mathieu Denis que disseca a construção de máscaras sociais de aparente sucesso, erguidas por um protagonista — Nacer Belkacem — cuja vida se desmorona sob o peso da mentira e das expetativas impostas por ele, pela comunidade e pela sociedade. É quase inevitável a lembrança de algum cinema de Stéphane Brizé, mas principalmente de L’Adversaire (2002), de Nicole Garcia, onde, partindo de uma história real, um homem (Daniel Auteuil) esconde durante décadas a sua verdadeira situação profissional para não desiludir a família, movido pelo medo da desilusão e da perda de prestígio perante os outros da mesma classe.
De origens imigrantes, Nacer Belkacem é um homem de classe média que, incapaz de sustentar o ideal de sucesso que abraçou, acaba por se perder no abismo que ele próprio ajudou a cavar. Casado, pai de três filhos e consultor bem-sucedido — o que muitos apelidam de bem integrado na sociedade canadiana —, encarna a figura tradicional do homem provedor, movido pelo impulso de querer mais: riqueza, poder e prestígio, entendidos como um todo indivisível. Esse ideal funciona como afirmação de sucesso perante a família, a comunidade e a sociedade, mas também como um sinal da sua masculinidade normativa. Ou seja, sucesso financeiro e de vida significa igualmente um homem mais completo (ou ideal). Quando os seus múltiplos investimentos começam a falhar, Nacer assemelha-se a um jogador de póquer que, mesmo com algumas mãos fortes, insiste em apostar até entrar num ciclo de perdas sistemáticas. Recusando-se a parar, acumula falhanços e dívidas até ao ponto em que já não consegue escondê-los — nem à família, nem aos amigos, nem a si próprio.
Nessa espiral para o inferno, Mathieu Denis e a diretora de fotografia Sara Mishara moldam a estética do filme como reflexo do colapso do protagonista: das luzes claras que sustentam a fachada inicial de estabilidade e ambição (veja-se a cena inicial em que o protagonista entra num Lexus), passamos a ambientes sombrios e contrastados, enquanto movimentos de câmara instáveis — muitas vezes em rotações de 180º — traduzem visualmente a vertigem,a visão enviesada da situação e a perda de controlo dos eventos.
À medida que o mundo à sua volta se desfaz, Nacer começa a mentir compulsivamente — à esposa, na escola de elite dos filhos, a colegas que lhe confiaram o dinheiro —, aprofundando o fosso entre aparência e realidade, numa descida vertiginosa até ao mundo do crime, onde até Fargo nos vem à cabeça: não fosse o filme começar com o vendedor de carros endividado Jerry Lundegaard (William H. Macy) a tentar esconder do sogro o insucesso. Porém, ao contrário do filme dos Coen, também ele com uma pontinha de “baseado numa história verídica”, Nacer encara-se como o tal self-made man e, por isso mesmo, ninguém mais é chamado ao seu jogo. No fundo, ele quer mais do que resolver a falta de dinheiro: quer provar a si e a todos que é um homem “oráculo”, tal qual como o arquétipo que frequentemente evoca.
Por caminhos turbulentos que nunca seguem o ritmo frenético do thriller, mas antes seguem eventos que se cozem em lume brando, The Cost of Heaven mantém, assim, uma tensão de suspense que atravessa o drama, que não é apenas familiar ou comunitário, mas principalmente existencial: um homem que se sente menos homem pelo fracasso.
Cabe a Samir Guesmi, ator francês de origem argelina, dar corpo (e alma) a Nacer. Sob a fachada do triunfo e da resposta sempre pronta aos desafios com um olhar de vencedor, o ator encontra sempre nele uma certa fragilidade. De certa maneira, Samir traz à cena algum do espírito cinematográfico de Roschdy Zem: uma rocha inquebrável que, na verdade, se vai desfazendo por dentro. A sua interpretação destaca-se pela tensão entre a dureza projetada e a vulnerabilidade que o consome: por trás da máscara de sucesso, Guesmi expõe o desespero silencioso de um homem encurralado, esmagado pelas expetativas. É nesse hiato entre aparência e ruína que o filme encontra a sua dimensão mais perturbadora — e, paradoxalmente, a mais humana e precisa.
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