Em 2021, a curta-metragem Al-Sit, de Suzannah Mirghani, apresentava ao mundo uma adolescente de uma aldeia sudanesa onde o cultivo do algodão era mais que um trabalho: era tradição, história e destino. No filme, o conflito pessoal dessa personagem com um casamento arranjado e a figura imponente da avó já revelavam tensões entre a modernidade e os costumes ancestrais, os quais se expandem em Cotton Queen, a primeira longa-metragem de ficção assinada por uma cineasta sudanesa, que retoma esse universo para expandi-lo em escala e complexidade, mantendo a modéstia de meios.

Tradições, herança colonial, o agronegócio global em conflito com a cultura tradicional, e as transformações sociais contemporâneas são condensadas no que chamarei de “épico da modéstia”, já que por entre acções na contemporaneidade somos levados frequentemente à história colonial britânica, num atravessamento de gerações, enquanto nos abrem a porta para um futuro onde a invasão das “sementes mágicas” do capitalismo exploram outras transformações e desafios na relação entre homens e a terra.

O foco da cineasta no feminino mantém-se, já que é a avó Al-Sit (Rabha Mohamed Mahmoud) que tomou conta da plantação de algodão da aldeia desde a libertação do Sudão do domínio britânico. Numa sociedade atravessada por conflitos desde então, vive-se um espírito matriarcal na liderança da aldeia, mas a própria questão no feminino ainda mostra metástases da tradição patriarcal (de índole religiosa e espiritual), com temas como o casamento arranjado e a excisão feminina a serem filtrados sob o olhar de Nafisa (Mihad Murtada), que como qualquer nova geração questiona a herança do passado, num exercício de preservação da identidade, mas de explosão da subserviência. 

Isso mesmo é despoletado com a chegada de Nadir (Hassan Kassala), um empreendedor de trinta e poucos anos que promove sementes geneticamente modificadas. Esta chegada provoca abalos, não apenas na chegada do capitalismo tardio ao local, mas também na dita herança ancestral que o posiciona como pretendente de Nafisa, com o fantasma de um novo casamento à revelia a circundar toda a narrativa. É neste ponto que convém desenvolver um pouco mais o termo “épico modesto” referido anteriormente, pois no atravessamento da era colonial para a atualidade, via múltiplas gerações, como já descrevemos, somos remetidos a histórias que se tornaram populares particularmente nos EUA, após a libertação dos escravos no pós guerra civil e o fim de algumas fazendas no sul do país e de modelos de vida coloniais.

O fim de uma era, a entrada de outra e mais uma que se prepara com as suas garras capitalistas para entrar no local e nas suas gentes tomam conta do olhar do espectador, que cria ele mesmo na sua cabeça uma história coletiva a partir de um registo íntimo e muito próximo na relação de Nafisa com a avó e tudo o que ela representa. As opções estilísticas da cineasta caminham nesse sentido, no retrato do íntimo e das pequenas coisas que se destacam noutras maiores, seja na forma das pessoas lidarem com a terra e com o algodão, nas relações entre elas num jogo de poder entre passado, presente e futuro.

Transformando não-atores em atores e com foco no eixo pessoas-terra, a cineasta viaja assim pelo terreno da modernidade em conflito com a tradição, indo além da análise de género e entrando nas discussões pós-coloniais e do capitalismo tardio que o cinema contemporâneo tem desenvolvido com maior ou menor precisão nas últimas duas décadas. E com a chegada do neo-capitalismo, chega também uma nova forma de colonialismo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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