Têm sido vários os estudiosos, da psicologia à sociologia, que se têm debruçado sobre os efeitos da guerra em crianças e adolescentes, estando esses jovens no meio declarado dos conflitos, ou apenas como observadores  nas suas periferias, como vemos nesta primeira longa-metragem de ficção de Nastia Korkia – um drama coming of age visualmente poderoso, ambientado num país, a Rússia (as filmagens decorreram na Sérvia), em guerra permanente.

E apesar das armas e explosões não se ouvirem na zona onde Katya (Maiia Pashkevich), de oito anos, foi passar o verão com os avós, imagens e referência a guerras e outros conflitos que ameaçam o local não faltam. Além de vários registos sonoros produzidos por rádios ou a televisão, sobre atentados terroristas ou zonas de combate, existe particularmente uma cena onde a banalidade do bélico está cimentado no retrato da infância: enquanto um grupo de crianças dá uns pontapés numa bola, um comboio com várias carruagens atravessa no pano de fundo a carregar diverso armamento, incluindo tanques. O que poderia ser um evento marcante para qualquer garoto que se entusiasma com soldadinhos de chumbo e brincadeiras de “guerra”, é aqui ignorado, demonstrando que esta é apenas uma composição ferroviária entre muitas que por ali passam, não tendo assim qualquer sabor de novidade para elas. Numa outra cena, também de forte impacto emocional, enquanto espera que o avô seja atendido, a pequena Katya assiste ao discurso de uma mãe que pede aos serviços governamentais que reconheçam a morte do filho.

E se os estudos que evocamos no início demonstram como as crianças desenvolvem estratégias de sobrevivência que impactam profundamente a sua identidade e saúde mental, vivendo em ambientes onde a desconfiança e a insegurança se tornam parte da experiência diária, o filme que temos pela frente não evoca em nada o que poderá acontecer no futuro a essas crianças afetadas pelas imagens hostilizados da guerra, preocupando-se mais com o agora, em que tudo é brincadeira, mas nada já é definido como a típica ingenuidade das crianças. 

A preocupação máxima do cineasta aqui é ver como esses cenários e os ecos de uma guerra são absorvidos pelos jovens no seu cotidiano, mesmo que eles não consigam entender em toda a plenitude o que significa a palava guerra, e as suas consequências.

De certa forma na linhagem de filmes que marcam pela declarada perda da inocência infantil, como Stand By Me ou, mais recentemente, Les Geants, Short Summer mostra uma geração que cresce em meio a paranoia, pobreza e hostilidade. Essa perda da inocência começa logo a ser desvendada numa das primeiras cenas do filme, quando dois miúdos, num ato de brincadeira e imitação do mundo adulto que as rodeia, mandam parar o carro onde Katya e os avós seguem, pedindo a identificação e questionando se transportam explosivos – como se fosse um posto de controlo militar. 

Planos fixos, muitas vezes filmados em longos takes à distância, como se fossemos voyeurs naquele mundo, demonstram as opções da cineasta em nos dar uma experiência mais sensorial que palavrosa. Na verdade, existem muito poucos diálogos, e os que existem são sempre enquadrados sob a lente da magnífica fotografia de Evgeny Rodin, com preferência pela luz natural, que capta com sensibilidade e subtileza as atmosferas de fim de tarde, dando a sensação de uma vida das personagens e de uma geografia presa num eterno crepúsculo, à procura de luz  – uma luz como a que a pequena Katya está sempre a tentar refletir numa das suas brincadeiras, como se fosse uma tentativa de compreender, controlar e iluminar um mundo que se recusa a ser claro.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
short-summer-une-a-fotografia-deslumbrante-a-uma-narrativa-silenciosa-e-duraDe certa forma na linhagem de filmes que marcam pela declarada perda da inocência infantil, como Stand By Me ou, mais recentemente, Les Geants, Short Summer mostra uma geração que cresce em meio a paranoia, pobreza e hostilidade.