Depois da escolha invejável que foi a escolha de Liam Neeson para se tornar uma espécie de Charles Bronson dos anos 2000/2010/2020, numa renovação do cinema de ação pelas veredas de um heroísmo outonal, grisalho, o grande cinema comercial passou a correr atrás de atores já maduros (e de talento dramático inquestionável) para os colocar em papéis de vigilantes crepusculares. Keanu Reeves já não era propriamente um jovem, mas sim um cinquentão, quando assumiu o papel de John Wick, que redefiniu o seu estrelato tanto entre os fãs de outrora como entre cinéfilos/as recém-chegados/as ao mercado audiovisual.
Foi o próprio criador de Wick, o argumentista Derek Kolstad, quem idealizou a figura de Hutch Mansell, uma espécie de gerente administrativo industrial cuja vida decorre numa pasmaceira entediante até que um incidente desperta a besta assassina que estava escondida na sua alma. No passado, matar era a sua especialidade, da qual abdicou em nome de uma aposta numa rotina familiar ao estilo de Norman Rockwell, o artista gráfico e pintor que fez do American Way of Life um objeto pictórico de culto. Domesticado na sua identidade de bom rapaz, o senhor Mansell necessitava de um intérprete maduro – o que qualificou Bob Odenkirk, da série Better Call Saul, para o trabalho. Ele tem uma sagacidade única em entrelaçar o lado patético da tragicomédia com a fúria. Deu-se ali o encaixe perfeito entre (bom) ator e um fino personagem, o que originou um filme frenético: Nobody, traduzido em Portugal como Ninguém e no Brasil como Anônimo.
Lançado em 2021, a produção custou 16 milhões de dólares e faturou quase quatro vezes mais (57 milhões de dólares), numa receita tão satisfatória que inspirou uma segunda parte – bem superior.*
É Timo Tjahjanto, realizador indonésio conhecido por The Night Comes for Us (2018), quem segura o leme de Ninguém 2, apoiado na vertiginosa montagem de Elísabet Ronaldsdóttir. Teve 25 milhões de dólares para investir nas filmagens, rapidamente recuperados graças a uma receita inicial estimada em 30 milhões. Neste regresso do herói, as produtoras – entre as quais a Odenkirk Provissiero Entertainment (empresa do protagonista) e a Universal Pictures – tiveram a (esperta) ideia de trazer uma antagonista tão icónica quanto a estrela principal: Sharon Stone. Ela diverte-se em cena no papel de uma magnata da vilania.
Existe um frescor contagiante na forma como todo o elenco se empenha em alcançar uma linha ténue entre o humor e a brutalidade da dramaturgia. Recuperado de um indício de enfarte sofrido logo após a pandemia, Odenkirk aplica uma injeção de adrenalina nas veias do pop na sua interpretação. Dono de um volumoso clube de fãs conquistado primeiro na televisão e mais tarde no streaming, graças ao desempenho como o advogado de lábia afiada Saul Goodman (também conhecido como Jimmy McGill), o ator tem vindo a ampliar o seu prestígio no cinema, em trabalhos capazes de transcender a sua persona de jurista aldrabão em Better Call Saul. Brilhou em Nebraska (2013), de Alexander Payne. Roubou a cena em The Post (2017), de Spielberg. Agora é a vez de confirmar o apelo da franquia Nobody, que o colocou em modo Rambo, enfrentando muito dos Fast & Furious que andam por aí.
Na segunda longa-metragem, conduzida com eletricidade por Tjahjanto, Mansell precisa ter férias para preservar a harmonia do casamento com Becca (Connie Nielsen) e decide viajar com ela e os dois filhos para um resort onde fora feliz em criança, ao lado do pai, o agente do FBI reformado David (Christopher Lloyd), e do irmão Harry (RZA, numa atuação afiada). A excursão promete ser um êxito até Mansell pisar os calos a um xerife perverso (Colin Hanks, no seu melhor trabalho) e a um empresário de índole duvidosa (Jon Ortiz), ambos submissos à chefe do crime, Lendina – a melhor personagem que Hollywood deu a Sharon Stone em anos. A atriz aproveita cada segundo em cena para destilar crueldade com estilo.
Numa tentativa de gozar o ócio, Mansell tenta evitar as armas, mas é empurrado para a rota do ódio. O apelo bruto do enredo de Ninguém 2 reflete um processo evolucionista de autorregeneração do mercado, ferido por farpas morais: sempre que o politicamente correto corrói um género dramático, este reestrutura-se por uma via B, pelo excesso. Foi o que aconteceu com o western na sua transformação em spaghetti, pela via italiana, com Por um Punhado de Dólares (1964). Sufocado sob a mordaça de aparelhos ideológicos, o cinema de ação atravessou os anos 2010 numa mutação similar à que se passou com o faroeste, migrando para uma instância de histeria e taquicardia, onde toda a sua brutalidade é exponenciada até ao limite do irreprimível – o que liberta a representação da violência física de qualquer amarra. Isso cria narrativas mais cinematográficas, de bestialidade gráfica. É o que se viu em John Wick (2014), uma obra-prima na aplicação de todas as cartilhas do thriller que transformou o produtor e duplo David Leitch numa espécie de Midas. O seu modo poliédrico de enquadrar uma luta ou um tiroteio – isto é, a habilidade de retratar uma briga a partir de diversos ângulos – tornou-se uma marca autoral, que, mesmo indigesta para muitos, se singulariza por desafiar pudores. O que começou de forma embrionária na saga com Keanu Reeves estendeu-se a outros projetos, e agora vê-se no acerto da franquia com Odenkirk.
Longe do arquétipo do abutre usurário de fato e gravata de Better Call Saul, Odenkirk brilha neste ensaio nietzschiano de Tjahjanto sobre “o lobo do homem”. Mansell aparenta ser apenas o pacato gestor de uma metalurgia, mas esse carvão bruto transforma-se num diamante do mais alto quilate quando o desgaste do quotidiano e das suas invisibilidades esgota a paciência. Resguardado do seu instinto predatório, moldado ao longo de um passado de fúria, escolheu uma casca frágil para esconder toda a ferocidade de um miolo indomável. O desgaste do casamento e a convivência com a filha e o filho alimentam ainda mais a vontade de potência do seu devir bandido, adormecido à força de um sonífero cuja química parece vencida. Quando o perigo lhe bate à porta, ele decide reagir. A sua reação escancara a inadimplência do Estado na proteção do indivíduo, detonando uma reflexão sobre segurança – nas raias da sombra fascista e nas franjas do desamparo social.
* Nas salas brasileiras, até a dobragem desta sequência supera a do original, com Hércules Franco a emprestar o vozeirão a Odenkirk.




















