Recordações de After Hours (1985), que valeu a Scorsese a distinção de Melhor Realização em Cannes, invadem a imersão no thriller Caught Stealing (em Portugal Apanhado a Roubar, no Brasil Ladrões), enquanto Darren Aronofsky se liberta das suas amarras bíblicas — ligadas ao Velho Testamento e à sabedoria dos anciãos judaicos — para se lançar num frenesim puro e incontrolável. A culpa, um dos seus temas por excelência, está presente, tal como a questão do excesso, central na obra deste realizador nova-iorquino. Mas o que mais sobressai no seu regresso ao grande ecrã — um retorno marcado por uma leveza nada comum na sua filmografia, quase num namoro descarado com os códigos de género — é a cinemática. Tudo ricocheteia em cena, como nos melhores filmes de Buster Keaton… e até chega a ser cómico em certos momentos… só que aqui há sangue. Muito sangue. E um gato, que rouba várias cenas.

Do felino há muito a dizer, em especial pela sua participação na sequência animada que encerra a longa-metragem — mais um sinal de que algo de suavidade se insinua no autor de mãe! (2017). Nos créditos finais surge um desenho animado digno de Tom & Jerry, em que o perigo espreita o jogador de basebol Hank Thompson a cada esquina, sem que este precise de se esforçar. A tragédia no seu passado — quando, alcoolizado, provocou a morte de um ente querido num acidente de viação — parece ser um íman de conflitos na sua busca pela paz. Austin Butler encarna-o como um herói trágico: ora passivo, quase bovino perante as adversidades, ora explosivo. A personagem deriva dos livros de Charlie Huston, a quem se deve o guião.

A ação decorre em 1998, ano em que Aronofsky se tornou farol da cena indie norte-americana ao ser premiado em Sundance com Pi. Nesse filme, sobre um matemático obcecado pelos segredos do número 3,1416, o cineasta inaugurou uma obra povoada por solitários, dependentes de uma relação excessiva com algum desejo. Fã confesso de Akira Kurosawa (1910–1998), imprimiu nestas figuras algo dos samurais do mestre japonês — a retidão nas causas e os códigos autoimpostos. Vê-se isso em Charlie, o professor de Literatura interpretado por Brendan Fraser no monumental A Baleia. Estes “samurais” de Aronofsky enfrentam sempre katanas afiadas da desmesura: nos cálculos (Pi), nas drogas (Requiem for a Dream, celebrado em Tribeca pelo seu 25.º aniversário), na vaidade (The Wrestler, Leão de Ouro em 2008) ou no perfeccionismo (Black Swan). A desmesura de Hank não se limita ao álcool: reside no azar. É um autêntico íman de desgraças.

Beber é a sua perdição. Mas uma ainda maior o aguarda quando o vizinho punk Russ (Matt Smith) o envolve num enredo ao deixar-lhe uma chave que pode abrir caminho a uma fortuna ilícita. Pelo meio, há uma namorada dedicada (Zoë Kravitz), profissional de saúde que lhe trata as feridas depois de dois brutamontes eslavos lhe partirem a cara. Há uma polícia determinada (Regina King) no seu encalço e dois mafiosos judeus ortodoxos, interpretados por Vincent D’Onofrio e Liev Schreiber, num registo quase cómico. Todos atrás da mesma fortuna… e talvez seja o gatinho do início quem guie Hank nesta demanda.

A evocação a After Hours deve-se ao alinhamento com a “comédia de erros”: a cada viragem do argumento, um novo risco se ergue diante do protagonista. Raro é encontrar, no cinema de autor norte-americano pós-anos 90, uma obra com tanta ação. É certo que Steven Soderbergh regressou em grande este ano com Código Preto, um thriller de espionagem. Mas Soderbergh começou antes, em 1989, com Sexo, Mentiras e Vídeo, Palma de Ouro em Cannes. Aronofsky, mais jovem, vem da mesma linhagem que nos deu Quentin Tarantino, Wes Anderson, Sofia Coppola e Paul Thomas Anderson — cineastas revelados nos anos 90 com o apoio de Sundance e Cannes.

O regresso de Aronofsky ao ecrã, apoiado na dionisíaca fotografia de Matthew Libatique, tem a energia de um estreante e a maturidade de um mestre. E Austin Butler, seguro e magnético, prova estar à altura do desafio.  

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Rodrigo Fonseca
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