Estreado em Locarno, na competição ao Leopardo de Ouro, antes de surgir no Festival de Sarajevo, God Will Not Help é uma nova incursão da croata Hana Jusić pelo mundo do patriarcado, ainda que, ao contrário do seu filme anterior, Quit Staring at My Plate (2016), troque a contemporaneidade pelo início do século XX, o urbano pelo rural, e um apartamento pequeno pela vastidão das montanhas.
Ainda assim, e de uma outra forma, mesmo que agora tudo decorra num espaço aberto, a sensação de opressão mantém-se, seja pela dureza da natureza que rodeia a figura central, seja por questões de ordem social que, em lume brando, vão sendo reveladas.
God Will Not Help leva-nos até uma aldeia croata remota, onde Milena (Ana Marija Veselcic) recebe a visita inesperada de Teresa (Manuela Martelli), uma misteriosa estrangeira que fala espanhol e diz ser a viúva do irmão dela. A chegada da forasteira — talvez vítima, talvez força disruptiva — gera desconfiança e desencadeia uma série de tensões, nas quais fé, desejo e poder se cruzam para desafiar o estabelecido.
Vencedora do prémio de melhor atriz em Locarno, juntamente com a sua colega de elenco, Manuela Martelli carrega, ora nas revelações, ora nas frequentes omissões e ambiguidades, a figura de alguém cuja presença desestabiliza as hierarquias masculinas e funciona como catalisadora de desejos e medos.
À opressão familiar que já sentíamos em Quit Staring at My Plate — onde, mesmo com a incapacidade do pai autoritário, a sua presença continua a ditar a lógica de poder da casa — junta-se agora a dos irmãos e primos do falecido, que reforçam as regras do patriarcado, acrescida da fé dogmática, da desconfiança no estrangeiro (acentuada pela barreira linguística) e do direito de posse. O único refúgio de Teresa parece ser a relação de alguma proximidade com Milena. As duas constroem um espaço de confidência e cumplicidade, apesar das barreiras linguísticas, mas nem isso se revela suficiente para afirmar que Teresa tem uma aliada nas suas pretensões, pois, mais uma vez, lealdade e poder familiar estão acima da sororidade.
Apoiado numa estética crua que trafega entre o drama, o western e o horror, com elementos de misticismo a cruzarem-se com uma realidade visceral, Hana Jusić expande, assim, o seu universo de análise patriarcal — do olhar cuidado sobre uma célula doméstica para um sistema simbólico mais amplo, que muitas vezes recorre ao divino para sustentar a sua liderança.
Por isso, God Will Not Help merece uma olhadela pela tensão permanente e imprevisibilidade que o sustentam, ainda que navegue por caminhos já trilhados por várias cineastas nos últimos anos, sem apresentar concretamente algo de novo ou incisivo sobre a questão.



















