Na escrita literária de As Viagens de Gulliver, em 1726, o irlandês Jonathan Swift (1667–1745), mestre da sátira, chegou a uma certeza — e fez dela uma piada: “O método estoico de enfrentar as necessidades suprimindo os desejos equivale a cortar os pés para não precisar de sapatos”. É precisamente esse espírito swiftiano que orienta a forma como Sonhar com Leões — o quinto e penúltimo longa de ficção de Gramado em 2025 — aborda as condições indignas a que são submetidas as pessoas à beira da morte. A política que ignora o calvário humano em nome da burocracia é o alvo do realizador luso-grego Paolo Marinou-Blanco (de Goodnight Irene), num filme que representa São Paulo no certame gaúcho, mas se passa em terras ibéricas, falado com um acento marcadamente português.

O cerne da narrativa assenta numa dicotomia: se há dor e sofrimento — no corpo e na alma — e não há perspetiva de cura, a antecipação da partida (leia-se: do fim) deveria ser um direito do indivíduo… mas, legalmente, não é.

O porquê disso costumava residir numa questão moral, subordinada a práticas religiosas. O argumento assinado por Marinou-Blanco não lhes dá espaço. Prefere centrar-se na indústria da morte, que se capitaliza no desejo alheio de encurtar o sofrimento. O tratamento é irónico, numa linha de tragicomédia pouco comum no cinema brasileiro (com raras exceções, como a obra de Sérgio Bianchi), mas bem enraizada na filmografia portuguesa, com parentesco genealógico com Technoboss (2019), de João Nicolau. A construção dramatúrgica, contudo, não é tão espartana.

Denise Fraga é o motor que alimenta o humor do filme, que tende mais para o esgar do que para a gargalhada, ainda que alguma risada irrompa aqui e ali. A sua personagem, Gilda, tem uma lógica à la Swift, ao dimensionar a parvoíce que rodeia a vontade de partir. As sequências iniciais — nos primeiros 15 minutos — são de uma verborreia vertiginosa, quase digressiva, mas vívida e desassombrada, na fala incontinente da protagonista sobre o suicídio.

Dados sobre os fracassos de pessoas que tentaram tirar a própria vida sustentam a exposição teórica que serve de alicerce ao argumento. A partir daí, Marinou-Blanco desvia-se para uma análise dos desconfortos que a eutanásia provoca na sociedade e dos riscos que impõe a quem a abraça como via de libertação.

Nesta medida, Sonhar com Leões articula-se — com inteligência — com uma das discussões mais recorrentes no cinema contemporâneo, a julgar pelo leão dourado entregue a Pedro Almodóvar pelo seu The Room Next Door, em Veneza, em 2024. Na esteira dessa vitória almodovariana, o tema reapareceu em Le Dernier Souffle, de Costa-Gavras (que agora ocupa salas de cinema do circuito de autor no Rio), e em Hot Milk, de Rebecca Lenkiewicz, já disponível na MUBI Brasil. Nos meses pós-pandemia, François Ozon entrou nesta conversa com Tout S’est Bien Passé (2021). Entre os seus antepassados contam-se As Invasões Bárbaras (2003), do canadiano Denys Arcand, e Mar Adentro (2004), do espanhol Alejandro Amenábar. O denominador comum é o princípio do cuidar, que inspira a medicina paliativa: garantir acolhimento e dignidade a quem se encontra nos derradeiros momentos da vida. Se essa possibilidade não for exequível, um fast-forward no ofício da “Indesejada das Gentes” (alcunha da Morte) pode surgir como alternativa. Godard optou por ela em 2022, aos 92 anos, ao declarar-se saturado de tanta informação.

Gilda tem esse perfil. As células cancerígenas na sua coluna já lhe corroem o equilíbrio e ameaçam paralisar lhe por completo os movimentos. Pareceria mau gosto tentar fazer piada disto, mas Marinou-Blanco foge à indelicadeza e abraça a ousadia ao aplicar o humor — como Swift fazia — na sua cartografia de uma sociedade em desamparo. O que enfraquece o seu engenho são procedimentos que não se sustentam com a coerência exigida na sua concretização. É o caso de uma eventual rutura da quarta parede — que acaba por parecer gratuita — e da invocação do sobrenatural, que não é explorada com a profundidade necessária. O potencial cómico acaba por diluir-se perante estas duas fragilidades.

Poço de carisma, Denise salta como o Coelho Ricochete (Ricochet Rabbit) em cena, no papel da imigrante brasileira que vive (ou melhor, padece) numa Lisboa autómata, e que se envolve num tipo de grupo de apoio a suicidas. Graficamente, a direção de arte recorre a placas e ilustrações que exibem formas de tirar a própria vida. Elas provocam risos saborosos. A arte do filme, no seu conjunto, é auspiciosa, graças à mestria profissional de João Torre no tratamento dos pormenores de cada espaço. A direção de fotografia gélida de Glauco Firpo, funcional (mas nunca vigorosa), tenta tonificar o trabalho de Torre, mas não consegue injetar o calor que os momentos mais tensos da trama exigem. A presença de Roberto Bomtempo, no papel do marido de Gilda, incendeia as poucas sequências em que aparece, mas, no geral, o caldo dessa fervura arrefece depressa. A reflexão tão valiosa que Marinou-Blanco abre acaba por não incandescer.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
sonhar-com-leoes-adormece-vulcoesO que enfraquece o seu engenho são procedimentos que não se sustentam com a coerência exigida na sua concretização. É o caso de uma eventual rutura da quarta parede — que acaba por parecer gratuita — e da invocação do sobrenatural, que não é explorada com a profundidade necessária