Contemplado com olhares estrangeiros durante a 75.ª Berlinale, onde teve estreia mundial na secção Generation, A Natureza das Coisas Invisíveis ressignificou parte dos sentidos que gerou na Alemanha ao estrear em solo brasileiro, na competição oficial do 53.º Festival de Gramado, onde ativou radares etnográficos. O que foi captado na Europa, na sua arrancada global, através de prismas afetivos — como a relação de amizade entre crianças — ganha agora novos contornos. Surgem tons mais antropológicos, sintonizados com a tradição religiosa das benzedeiras, no mapeamento do universo chamado de “caipira”, do povo camponês.

Benzer é um verbo de ação contra males espirituais e também físicos. Não se trata de uma liturgia oficial do Catolicismo, mas evoca Cristo, múltiplos santos, Nossa Senhora e o Deus do Novo Testamento — aquele que perdoa. Existe uma ligação deste ato a rituais pagãos de outrora, inclusive à feitiçaria, mas a realizadora Rafaela Camelo, também autora do guião de A Natureza das Coisas Invisíveis, não aborda esses pormenores. O caminho que ela escolhe, com leveza sociológica, gravita em torno do embate entre crendice e racionalismo, a partir de um espaço ao mesmo tempo cientificista e humanista: um hospital.

Na trama, Glória, de dez anos (interpretada com encanto por Laura Brandão), acompanha a mãe, a enfermeira Antónia (Larissa Mauro), no trabalho, num ambiente hospitalar onde doentes de idade avançada padecem de diversas moléstias. A rapariga já conhece o local e costuma explorá-lo sozinha. Tem um passado de doença, expresso por uma marca no peito. Um dia, conhece Sofia (Serena), da mesma idade, que está no hospital por causa da bisavó (Aline Marta Maia), uma curandeira espiritual. A idosa sofre de Alzheimer, mas ainda faz as suas invocações. A mãe da miúda (papel de uma inspirada Camila Márdila) já não sabe como lidar com a impaciência de Sofia. A aproximação entre esta mulher e Antónia gera uma cumplicidade entre as duas protagonistas de dentes de leite, que desagua numa discussão sobre identidade de género.

Este debate é envolto por um elemento sobrenatural, numa ligação genealógica do filme de Rafaela com o multipremiado 20.000 Espécies de Abelhas (2023), da realizadora basca Estibaliz Urresola Solaguren. Não se fala em disforia, mas há uma reflexão metafísica sobre um registo de masculinidade rejeitado, a ser definitivamente enterrado e despachado para o Além. O mundo espiritual faz-se notar de múltiplas formas na narrativa, desde os relatos da personagem de Márdila sobre visões invulgares até à aparição de um porquinho. O suíno não parece pertencer a este plano. Algumas figuras em cena também se despedem dele, num trânsito para um limbo rural, semelhante ao paraíso dos arcadios.

Na interseção entre este território — supostamente e idealmente místico — e o Centro-Oeste do Brasil, desenha-se uma tangente pela cultura do campo, na devoção às matas, entre árvores e patos. A direção de fotografia de Francisca Sáez Agurto, sempre apolínea, jamais demarca diferenças entre os dois hemisférios: a urbanidade do Distrito Federal e o chão batido goiano. É uma forma (sagaz) de Rafaela — também montadora do filme, ao lado de Marina Kosa — dizer que há algo de mágico nas mínimas situações do dia a dia, as tais Coisas Invisíveis. Nesta toada, o filme sublinha uma singularidade do Festival de Gramado deste ano, na ficção: o investimento em enredos que caminham num fio ténue entre concretudes sociais (racionais) e mistérios para além da matéria, nas franjas da alma.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
a-natureza-das-coisas-invisiveis-benze-os-rituais-do-campoO caminho que Rafaela Camelo escolhe, com leveza sociológica, gravita em torno do embate entre crendice e racionalismo, a partir de um espaço ao mesmo tempo cientificista e humanista: um hospital.