Exibido fora de concurso no Festival de Locarno, Le Chantier visita a renovação de um cinema lendário em Paris, liderada pelo arquiteto Renzo Piano. É uma nova incursão do documentarista suíço Jean-Stéphane Bron no estudo de um microcosmos, depois de em 2017 ter olhado para a Ópera de Paris (L’Opéra).

Jean-Stéphane começou a sua carreira com os olhos postos na política institucional. Em Mais im Bundeshuus – Le Génie helvétique (2003), seguiu os bastidores do parlamento e, em detalhe, as negociações em torno da lei dos transgénicos. Seguiu-se Cleveland contre Wall Street (2010), onde encenava um julgamento fictício que colocava os cidadãos de Cleveland (EUA) frente a frente com grandes bancos após a crise imobiliária. Em L’Expérience Blocher (2013), colocou o olhar sobre o líder populista Christoph Blocher, em particular na formação do seu carisma e na sua psicologia política.

Foi em 2017 que Bron começou a explorar outros universos institucionais, conectados à arte, entrando pelo mundo cultural no já referido L’Opéra. Seguiu-se Cinq nouvelles du cerveau (2021), onde entrava no campo da ciência e filosofia através da jornada pelo trabalho de cinco cientistas na intersecção entre cérebro, consciência e inteligência artificial.

Le Chantier foca-se no Pathé Palace, cinema localizado bem perto de L’Opéra em Paris e que se renovou via um projeto arquitetónico do consagrado arquiteto italiano Renzo Piano. Este mesmo aparece em cena, falando da sua estrutura criativa em modo de pirâmide invertida, que traria luz (Lumière) a uma arte que deu os primeiros passos com os irmãos Lumière.

Olhando desde os processos criativos do projeto à sua concretização (obras), passando por detalhes como as escolhas dos assentos, telas e muito mais, o filme narra em si a transformação do próprio cinema. É que, do espaço dedicado a vislumbrar um filme num ato de partilha, o capitalismo e a organização económica liberal propôs, para a sobrevivência desses mesmos espaços, a transformação do ato de ver um filme numa “experiência”. Assim é atualmente em quase tudo. Já não vamos a um festival para ver concertos, vamos a um evento ou a uma experiência. As férias já não são apenas uma viagem, mas uma experiência. Uma ida ao restaurante transformou-se numa experiência gastronómica e ir ao cinema também. Aqui, a nova “experiência” custa agora 25 euros.

Das conversas sobre arquitetura aos trabalhos da construção civil, passando pela engrenagem laboral de todos os que estão envolvidos no novo espaço, incluindo pessoal da limpeza e colaboradores vários, vemos a transformação de um equipamento cultural e cinematográfico num espaço multifunções preparado para receber outros eventos (congressos, palestras, etc.), ou seja, “preparado para a era moderna”.

O olhar de Jean-Stéphane a este microcosmos não é de críticas implícitas, mas é difícil não ver, na apresentação final do espaço — quase de esterilização espacial das marcas da 7ª arte —, uma forma do cineasta mostrar algum desconforto perante a mudança espiritual da sala de cinema e do próprio cinema em si.

O resultado final é, assim, um documentário curioso que vai além da mudança urbana e cultural, mas entra pela própria mudança do mundo e da forma como vemos o cinema e a sala de exibição, numa análise à filosofia dos espaços no mundo capitalista. O que resta do cinema quando se transforma num “espaço de experiências” que vão além dos filmes? Esta é a pergunta silenciosa que atravessa Le Chantier.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
le-chantier-o-que-se-ganha-e-o-que-se-perde-ao-se-salvar-um-cinema-na-modernidade O que resta do cinema quando se transforma num "espaço de experiências" que vão além dos filmes? Esta é a pergunta silenciosa que atravessa Le Chantier.