A cineasta arménio-francesa Tamara Stepanyan tem construído um corpo de obra no cinema documental onde a memória, exílio e identidade têm estado em destaque. Através de documentários íntimos, como Embers (2012), onde homenageia a avó e a resistência numa Arménia pós-guerra, Village of Women (2019), que retrata comunidades rurais marcadas pela ausência de homens, destacando a força silenciosa das mulheres, ou Those from the Shore (2017), onde segue dezenas de requerentes de asilo arménios que vivem num limbo, entre dois países e duas vidas, no porto de Marselha, a cineasta tem deixado a sua assinatura com precisão. E não podemos esquecer My Armenian Phantoms (2025), estreado este ano na Berlinale, onde a morte do pai, o ator Vigen Stepanyan, desencadeia uma jornada entre arquivos familiares e a história do cinema soviético arménio.

Entrelaçando novamente o pessoal e o coletivo, dando voz a histórias esquecidas e celebrando a resiliência da identidade arménia através do tempo, distância e gerações, Tamara teve como a sua estreia na ficção In the Land of Arto (Le Pays d’Arto), filme que marcou a abertura oficial do Festival de Locarno 2025.

Novamente um mergulho emocional e político ao coração da Arménia, o filme viaja em permanência por entre histórias de perda, primeiro de Céline, uma mulher francesa interpretada por Camille Cottin, que viaja até à Arménia, após a morte inesperada do marido, Arto. O seu objetivo no território é encontrar a certidão de nascimento do companheiro, com o qual tem dois filhos. O que começa como uma história de luto pessoal desdobra-se num confronto com a verdade sobre a história de vida do marido, a qual, inevitavelmente, cruza-se com a de um país marcado por conflitos (no Karabakh), desastres naturais e migrações forçadas.

Tamara canaliza a ética do seu olhar documental para a ficção. Leva-nos numa viagem de descobertas dolorosas, seja através de pessoas, lugares ou guerras silenciosas com que Céline se cruza, transformando-se a certo momento o filme num road movie com contornos políticos quando a viúva e uma jovem (Zar Amir Ebrahimi) que conheceu partem em direção ao Karabakh, com vista a visitar o pai combatente da segunda. 

O luto de Céline pelo marido rapidamente se funde com o luto coletivo de um país, primeiro por um terramoto (1988) que deixou marcas até hoje no território, depois com a “fuga” de um território para o Azerbaijão. O sentimento de causa que parece ter sido em vão amolece o espírito Arménio e, no caso do marido de Céline, contribuiu mesmo para ele ter posto fim à vida. Numa entrevista, a realizadora explicou que queria uma morte súbita, mas carregada de significado: o colapso de um homem que não suporta a ideia de que tudo pelo que lutou desapareceu. A morte de Arto sai assim do terreno pessoal e pisa (com os dois pés) o ato político.

Com uma bela contribuição estética imersiva da diretora de fotografia Claire Mathon (de Portrait of a Lady on Fire), o guião arrisca alguns desequilíbrios, especialmente quando uma visita de Céline a uma cidade afetada pelo terramoto, e a ausência de respostas sobre a verdade do que aconteceu ao marido, deixam a personagem e o espectador a navegar um pouco no vazio. Uma cena final com Denis Lavant, parece também deslocada (disparatada) e pouco integrada na economia emocional do filme. Mas mesmo com esses desequilíbrios e como primeira experiência na ficção, In The Land of Arto tem suficiente força, poética e política, na exposição de uma dor asfixiante e de um jogo de perdas brutais (individuais e coletivas).

Camille Cottin, que já este ano foi surpreendida em “Les enfants vont bien” pelo sentido de missão reforçado, movida pela maternidade e responsabilidade imposta, constrói a sua interpretação novamente com uma forte carga emocional de contenção que se revela primordialmente em gestos, olhares e silêncios. Mais uma vez, de uma forma completamente diferente, mas a certo ponto similar ao do filme de Nathan Ambrosioni, atriz veste novamente a pele de alguém que não tem um plano ou um mapa de ação após um evento transformador. Forçada a aprender enquanto avança, pois ao desvendar o marido, descobre também o seu próprio desconhecimento, a atriz cumpre, com estranheza por tudo o que a rodeia, mas sempre determinação em explorar que não há cura sem confronto. E quando se olha para o abismo — e ele olha de volta – o que resta é a verdade.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
in-the-land-of-arto-quando-o-luto-pessoal-encontra-o-luto-de-um-paisForçada a aprender enquanto avança, pois ao desvendar o marido, descobre também o seu próprio desconhecimento, Camille Cottin cumpre, com estranheza por tudo o que a rodeia, mas sempre determinação em explorar que não há cura sem confronto.