I Am Not a Witch (Eu não sou uma bruxa, 2017) é a longa-metragem de estreia de Rungano Nyoni, super premiada e exibida em mais de 50 festivais de cinema do mundo, tendo estreado na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes. Filme da argumentista e realizadora da Zâmbia, criada em parte no País de Gales. As suas curtas-metragens Mwansa the Great (2011) e Listen (2014) também foram premiadas em festivais de cinema. 

Shula, uma menina órfã de oito anos, após um incidente banal na sua aldeia, é acusada de ser bruxa. Realiza-se um julgamento rápido e ela é considerada culpada, passando a sua custódia para o Estado e sendo exilada num «campo de bruxas» na zona rural. Lá, participa numa cerimónia de iniciação, onde lhe são mostradas as regras que regem a sua nova vida como bruxa. Tal como as outras mulheres ali acusadas de bruxaria e escravizadas, Shula é amarrada a fitas de tecido ligadas a uma bobina colocada no topo de uma grande árvore. Dizem-lhe que, se cortar as fitas, será amaldiçoada e transformada numa cabra.

A ficção da realizadora Nyoni é uma mescla do estilo de Alejandro Jodorowsky e de Michael Haneke. Para quem não conhece, o cinema de Jodorowsky combina elementos de surrealismo, violência, simbolismo, misticismo e temas filosóficos. Os seus filmes são experiências viscerais, desafiam as convenções cinematográficas e exploram o lado obscuro da condição humana. Já o de Haneke traz uma abordagem provocadora, explorando temas perturbadores com uma estética mais realista, expondo a violência da sociedade e a fragilidade da condição humana.

O filme de Nyoni foi rodado com poucos recursos, tendo como localização principal uma quinta numa terra árida de uma pequena aldeia da Zâmbia. É contado como um conto de fadas satírico, envolvendo superstição, misticismo, o poder masculino sobre as mulheres e a realidade social do interior de África. Um filme que versa sobre os resquícios da prática escravagista do colonialismo, sobre machismo e opressão feminina, e sobre costumes e crenças locais.

Para se perceber melhor o contexto do filme, a Zâmbia é um país do sul de África, sem saída para o mar, com paisagens naturais e vida selvagem, muitos grupos étnicos e uma forte cultura bantu — marcada por práticas religiosas e crenças tradicionais locais.

Em I Am Not a Witch, mulheres acusadas de bruxaria e expulsas das suas comunidades, forçosamente exiladas do convívio familiar e social, são enviadas para um campo laboral, onde são obrigadas a trabalhar acorrentadas como escravas. A realizadora não recorre a correntes, mas a uma simbologia: as mulheres estão atadas a longas fitas brancas, com alguma mobilidade para trabalhar, embora os seus movimentos sejam controlados e limitados dentro do espaço de trabalho — onde também vivem precariamente. Sofrem pressão psicológica e física, e, se saírem desse espaço, arriscam as suas vidas.

A protagonista Shula, interpretada por Maggie Mukubwa (imagem acima), foi descoberta durante uma pesquisa de localizações na província de Luapula e escolhida entre mais de cem crianças. Uma escolha muito acertada, pois a menina encarna de forma magistral a personagem de uma criança involuntariamente e supostamente bruxa, expressando a inocência infantil em confronto com o suposto poder sobrenatural. O seu olhar e a sua presença no ecrã são tão fortes que quase hipnotizam o espectador.

E como o próprio filme indaga: pode uma criança ser bruxa?
Enquanto criança bruxa, com poderes especiais, Shula é explorada pelo governo local para julgar roubos e outros crimes da comunidade — algo que beira o surreal. Órfã de pai e mãe, impossibilitada de viver como criança, é então escravizada pelo presidente da aldeia, que apenas pretende tirar proveito do suposto poder sobrenatural da menina. 
Trata-se de uma narrativa social, tragicómica, mística e fantasiosa.

Nyoni inspirou-se em relatos reais de acusações de bruxaria na Zâmbia. Na sua pesquisa, quase antropológica, foi até ao Gana conhecer e observar os rituais diários de mulheres julgadas pela sociedade como bruxas, num dos mais antigos «campos de bruxas» do mundo. Esses campos são locais de exílio para mulheres acusadas de bruxaria, onde buscam refúgio da violência e evitam linchamentos e mortes nas suas comunidades. A essa investigação, Rungano Nyoni juntou a sua própria invenção para construir a história do filme.

As mulheres foram frequentemente acusadas de bruxaria ao longo da história, com muitos julgamentos e execuções a ocorrerem em várias partes do mundo, especialmente durante a Idade Média e o Renascimento. Só não imaginava que isto ainda hoje existe em África. As acusações contra as mulheres eram — e ainda são — motivadas por superstição, medo e preconceito, e muitas vezes usadas para justificar a perseguição e a violência contra elas.

Rungano Nyoni combina humor e fantasia com crítica social, denunciando, de certa forma, a situação de mulheres julgadas como bruxas e pondo em evidência esta realidade social comove o espectador.

Numa entrevista, a realizadora declara que deu alguma liberdade para as mulheres interpretarem os papéis, mas que não foi fácil dirigir as 32 mulheres, que no filme interpretam as personagens acusadas e tratadas pela comunidade local como bruxas. Não foi fácil por estas não serem atrizes e por falarem diferentes dialetos. Para ela era importante as mulheres representarem as personagens a partir dos sentimentos que conectam cada ação à realidade. Entre as mulheres do filme há um acolhimento comunitário e proteção. Houve algumas semanas de ensaios e cinco intérpretes ajudaram Nyoni na direção das não atrizes. Nyoni relata também que não filmou muito e que na montagem foi difícil de encontrar o tom que ela desejava para o filme, mas no final ficou satisfeita com o resultado.  

Os diálogos bem humorados, místicos e quase bizarros, típicos do cinema de Jodorowsky, por vezes até suavizam a violência retratada na ficção. O diretor de fotografia por sua vez constrói uma luz e uma atmosfera quase onírica da paisagem árida da locação principal do filme. A música – trilha sonora do filme (criada por Matthew James Kelly) faz parte do mundo ficcional da narrativa, é pontual e eficaz, cria uma atmosfera de suspense, dá ritmo aos planos e se relaciona com os sentimentos das personagens, causando impacto emocional no espectador.

I Am Not a Witch está disponível online na plataforma MUBI  Vale a pena ser visto!

Link curto do artigo: https://c7nema.net/fw8a
Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
eu-nao-sou-uma-bruxa-um-filme-de-rungano-nyoniOs diálogos bem humorados, místicos e quase bizarros, típicos do cinema de Jodorowsky, por vezes até suavizam a violência retratada na ficção. O diretor de fotografia por sua vez constrói uma luz e uma atmosfera quase onírica da paisagem árida da locação principal do filme.