Nascida após The Kentucky Fried Movie (O Filme Mais Maluco do Mundo, 1977) e Airplane! (Aeroplano!, 1980), num género de paródia (Spoof) que não podemos afastar influências do cinema que Mel Brooks (Blazing Saddles, 1974) foi percursor, o trio David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker (ZAZ) desenvolveu a série televisiva Police Squad! (1982), paródia aos filmes e séries sobre procedimentos policiais, assemelhando-se – em jeito gozão – a M Squad (em particular os créditos de abertura) e a Felony Squad

Cancelada após seis episódios, o conceito foi revisitado em modo filme na saga The Naked Gun, que entre 1988 e 1994 entregou ao espectador três filmes – “The Naked Gun: From the Files of Police Squad!” (Aonde É que Pára a Polícia?, 1988), The Naked Gun 2 1/2: The Smell of Fear (1991), e Naked Gun 33 1/3: The Final Insult” (1994) – que, tal como no produto original, tinham Leslie Nielsen como o polícia Frank Drebin. Pelo meio, entre o fim da série e o início da saga Naked Gun”  os ZAZ fizeram ainda outra das obras primas da comédia: Top Secret (1984).

O sucesso das spoof comedies nos anos 1980 e início de 1990, com outros exemplares de fina qualidade como Spaceballs (A Mais Louca Odisseia no Espaço 1987), Hot Shots! (Ases Pelos Ares, 1991) e National Lampoon’s: Loaded Weapon 1 (Arma Infrutífera, 1993), esmoreceu a caminho do novo milénio, ganhando novo alento após a estreia de Scream (1996) nas salas e a paródia que se colou a ele: Scary Movie (2000), dos irmãos Wayans, que originou até 2015 cerca de cinco filmes – o último dos quais até com David Zucker na equipa criativa.

Depois desta saga, só dois filmes esporádicos, Epic Movie (2007) e Disaster Movie (2008), tiveram alguma relevância na forma (e box-office), ainda que A Million Ways to Die in the West (2014), de Seth McFarlane e The Ridiculous 6, tenham trazido algum do espírito de Blazing Saddles, ainda que agarrado às personas de Seth McFarlane e Adam Sandler, respetivamente.

Paralelamente a isto tudo, Nielsen, figura de destaque em Aeroplano! que ganhou com Naked Gun o estatuto de estrela, surgiu em vários projetos da mesma linha (Wrongfully Accused; Spy Hard — só para dar dois exemplos de uma mão cheia deles). Todos estes filmes criaram inevitavelmente desgaste do formato no espectador, mas também na imagem do ator, que nunca mais saiu do reino destas paródias, até falecer em 2010, já com dois filmes Scary Movie adicionados ao currículo.

O desgaste, sem dúvida, muito mais que qualquer pressão daquilo que muitos chamam de “patrulhas da correção política” para culpar tudo o que desapareceu no mundo do cinema, secou um filão, pelos menos no sistema de estúdios que, deixando de apostar em cinema (e comédia) para adultos que não tivesse super-heróis envolvidos (vide Deadpool), viu outros formatos e plataformas (na TV, nos palcos de espetáculos stand-up, nas redes sociais e streamers) fazerem uma concorrência violentíssima. Os grandes nomes da atualidade deste género tradicional – Ricky Gervais, David Chappelle, Trey Parker, Adam Sandler, Seth MacFarlane e até Mel Brooks – estão agora no streaming, não por causa da sua incorreção política (o streaming também podia facilmente ser atacado pelas tais “patrulhas”), mas porque estas novas plataformas podem pagar bem mais do que qualquer estúdio de Hollywood o faria. Que o diga Scorcese, Fincher e muitos autores que tais, também eles “emigrados” para o online.

É assim que, 37 anos depois do primeiro Naked Gun, acaba por ser surpreendente que a saga regresse aos cinemas, agora entre a continuação/sequela, já que temos Liam Neeson no papel do filho de Frank Drebin, e o remake, pois o modelo de paródia — entre a repetição de piadas, o non sense e o non sequitur — permanecem na fórmula, mesmo que a equipa criativa e o elenco agora esteja todo renovado. 

Neeson, também ele nos tempos que correm agarrado ao modelo de herói de cinema de ação, desde o nascimento da sua segunda vida cinematográfica com Taken (Busca Implacável, 2008), faz uma rara incursão na comédia, embora tenha dado provas no passado, quer seja no filme mencionado de Seth MacFarlane, quer seja na série Life’s Too Short, de Ricky Gervais e Stephen Merchant.

Aqui ele é Frank Drebin Jr., um polícia que continua a fazer história na resolução pouco ortodoxa dos crimes, mesmo que leve a sua chefe à loucura. O ponto de partida da trama é o aparente suicídio de um funcionário de uma empresa de tecnologia. É via esse caso que Frank conhece a irmã do homem, Beth Davenport (Pamela Anderson), uma romancista de crimes reais que insiste que o seu irmão foi assassinado. Na busca da verdade, Drebin dá de caras com Richard Cane (Danny Huston), um bilionário da tecnologia que planeia erradicar a maior parte da humanidade para reiniciar a civilização a partir de uma elite. Só Drebin poderá salvar o mundo e, consequentemente, também a existência da Police Squad, entretanto ameaçada com a extinção.

O que se segue é o que esperamos, ou seja, um fluxo incessante de piadas e referências ridículas à cultura pop atual, manuseadas com carisma e química por Neeson e Anderson, duas figuras em atrito que progressivamente se entregam à paixão, a insinuações sexuais picantes e, derradeiramente, a um dos ménage à trois mais bizarros (e ridículos) que o cinema já viu.

Sem também esquecer algum humor escatológico e o esmagar dos clichês das séries, filmes e livros policiais, Naked Gun não foge também de temas sérios com implicações políticas (o vilão é daqueles Elon Musks da vida; críticas à criptomoeda e outros esquemas de pirâmide) e sociais (piadas à brutalidade policial). Mas, acima de tudo, o mundo de entretenimento em que vivemos é o principal e mais certeiro alvo, com os anúncios publicitários ao estilo YouTube a terem uma entrada no filme absolutamente hilariante.

Dito isto, numa mistura de nostalgia e renovação que se tornou imagem de qualquer reinicio cinematográfico na última década, Naked Gun é assim um regresso conseguido da saga, ainda que, se colocarmos este filme ao lado do original, seja inevitável dizer que não alcança o seu brilho.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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