Chegando às salas carregado pelo peso da herança e da memória — um projeto sonhado por António-Pedro Vasconcelos (1939–2024) e nascido de um conto apenas publicado após a morte de José Cardoso Pires (1925–1998)— Lavagante poderia facilmente ter-se transformado numa prisão de expetativas. Sobre os ombros de Mário Barroso recaía a dupla tarefa: honrar o escritor e o cineasta ausente. Mas, em vez de se afogar nesse fardo, Lavagante respira como um gesto ousado no panorama do nosso cinema, capaz de transformar a ambiguidade espelhada no ecrã em força – catapultando Júlia Palha e a imagem que tem construído no cinema nacional como uma das atrizes mais interessantes de seguir.
Com 94 minutos e todo ele construído a preto e branco, Lavagante leva-nos numa viagem aos tempos do Estado Novo, …onde a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) mantém o olhar totalitário, capaz de ver em tudo e de tudo se apropriar, como uma sombra. É nesse mundo de vigilância permanente que Daniel (Francisco Fróes), um cirurgião com amigos na oposição ao regime, e Cecília (Júlia Palha), uma jovem “de boas famílias”, que estuda em Lisboa, envolvem-se numa trama com tanto de romanesco como de thriller noir.
A história de ambos chega até nós a partir de uma conversa no presente entre Daniel — acabado de sair dos calabouços da PIDE e de partida para o estrangeiro — e um amigo jornalista (Nuno Lopes). Através dessa conversa, o filme desvenda, em suaves flashbacks, a história do seu relacionamento com Cecília — uma verdadeira jornada de descoberta e entendimento sobre esta mulher, que foi vista recentemente num restaurante costeiro, acompanhada por um agente de topo da PIDE (Diogo Infante). Seria ela uma manipuladora ou uma figura genuinamente romântica e transformada pela paixão por Daniel?
Nas linhas de estudo da personagem e das suas intenções, Barroso coloca-nos diante de uma Cecília construída entre a femme fatale enigmática — que fuma como Lauren Bacall e cita Bergman—, e a romântica revelada inesperadamente pelo fluxo de paixão que irrompeu por entre uma capa de mulher inatingível, mesmo para um “Marialva” como Daniel.
Certo é que ela quer “devenir femme”, como Simone Beauvoir descreveu, e vive inserida num universo patriarcal que a vigia e controla, seja através da sua família salazarista que vive a norte, seja pelo “amigo” PIDE que a “protege” em Lisboa. Pelo meio, há um preço duro a pagar por essa “benevolência”.
A metáfora do lavagante — que alimenta o safio até este não poder escapar da toca — é o eixo do filme, ecoando ambiguidades e dúvidas inerentes à relação entre Daniel e Cecília. Por outro lado, o modo como o enredo se vai descosendo, fio a fio, não é acidente nem falha de costura, estabelecendo-se uma ligação com La Tosca, de Sardou, e com a ópera de Puccini, onde a toada de sacrifício se converte em espelho e em cicatriz, reforçando o tom de tragédia em tempos de opressão do sistema.
Depois de Ordem Moral (2021), Um Amor de Perdição (2008) e O Milagre Segundo Salomé (2004), Lavagante confirma Barroso como um cineasta “atento aos detalhes” e que gosta de visitar os labirintos do amor e do poder.
Nisto, temos assim os ingredientes certos para que o espectador o queira descobrir no dia em que se cumprem 100 anos do nascimento de José Cardoso Pires.



















