Com o passaporte carimbado para o Festival de Veneza, com a escolha de Jay Kelly para concorrer ao Leão de Ouro, Adam Richard Sandler voltou às ribaltas eletrónicas, no final de julho, com a estreia de Happy Gilmore 2 (em Portugal: O Maluco do Golfe 2) na grelha da Netflix, plataforma digital onde encontrou refúgio há exatamente dez anos. É, de longe, um dos exercícios narrativos mais ousados nestes tempos de patrulhas ideológicas disfarçadas de correção política, capaz de desafiar convenções morais vigentes sem o mínimo pudor. A elegância nunca foi o seu forte, tal como nunca o foi nada do que o comediante de 58 anos por trás de fenómenos comerciais como Click (2006) fez no universo do riso desde a década de 1990. Não se esqueça de que, em 2002, a comédia dramática Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson, levou-o a Cannes, onde o realizador conquistou o prémio de Melhor Realização. O trabalho atual do ator não tem nada a ver com PTA, nem almeja ser cultuado, embora possa vir a alcançar essa dimensão num futuro qualquer — tal como várias comédias aparentemente descartáveis de Jerry Lewis (1926–2017) acabaram por alcançar.
O realizador Kyle Newacheck — mais habituado a séries e clipes do que à sala escura — seguiu a receita clássica dos títulos de maior sucesso pop do seu protagonista, moldada ao longo dos anos por cineastas como Frank Coraci, Denis Dugan, Steven Brill e Peter Segal, com quem Sandler criou a sua obra-prima cómica: Como Se Fosse A Primeira Vez, de 2004. Percebe-se bem o porquê desta adesão a um modelo (durante muito tempo infalível) quando se entende que o projeto é uma legacy sequel — uma sequela tardia, ancorada no passado.
Houve um Happy Gilmore em 1996, que custou 12 milhões de dólares e arrecadou 41 milhões. Tudo na trama deste novo exercício pícaro do astro remete ao filme original: sequências evocadas, coadjuvantes resgatados. O melhor deles, Hal L. (interpretado por Ben Stiller), ganha agora mais destaque e melhores piadas, ao assumir o papel de líder de um grupo de dependentes químicos em recuperação. Em 1996, Stiller arriscava-se na realização, ao dirigir Jim Carrey em The Cable Guy. Na altura, os motores da gargalhada eram outros, sobretudo porque Robin Williams (1951–2014) ainda dominava o género com toda a força. Carrey e Williams eram reis, com Mike Myers, Dana Carvey e Pauly Shore também no radar, sem falar das divas e dos galãs das rom-coms, as histórias de amor com coeficiente de graça. Também havia Eddie Murphy, que reinou nos anos 1980 e fez bonito com Dr. Doolittle e The Nutty Professor na segunda metade dos anos 1990.
Na altura, Sandler era um mestre do humor vindo dos palcos e da televisão, ansioso por conquistar um lugar de destaque no cinema. Na génese de uma carreira hoje vista como modelo na comédia americana — com uma média de 100 milhões de dólares por filme entre 1998 e 2011 —, impôs-se com Waterboy (1998), que custou 23 milhões de dólares e arrecadou 186 milhões. Foi ali que a sua Estrada de Tijolos Amarelos se pavimentou, consolidando uma relação com os exibidores que se renderam à sua estética galhofeira.
Desde então, pôs-se à prova muitas vezes: em dramas como Reign Over Me e Men, Women & Children, no thriller Uncut Gems (a sua atuação mais incendiária), e nas animações Hotel Transilvânia. Arriscar-se, contudo, não significa esquecer as fórmulas que o tornaram uma marca. A aproximar-se dos 60 anos, Sandler não abandona o passado e traz Happy Gilmore de volta, tal como era nos anos 90, agora um jogador de golfe afogado em Jack Daniels, trinta anos depois da sua consagração.
A bebida tornou-se o seu refúgio após matar acidentalmente a companheira, Virginia (Julie Bowen). Tiveram quatro filhos, sendo a mais nova, Vienna (Sunny Sandler, filha de Adam na vida real), a precisar de um grande aporte financeiro para custear os estudos em balé na França. Isso obriga Happy a reconciliar-se com os tacos — e, antes disso, a parar de beber.
Apesar do deboche contínuo, O Maluco do Golfe 2 aborda a questão da dependência alcoólica com responsabilidade, permitindo-se alargar o vício a um personagem (o habitual Steve Buscemi) que bebe Listerine como se fosse Coca-Cola. Para além desta camada mais “adulta”, a longa-metragem assume-se no nível da infantilidade de trocadilhos básicos. Nenhum pudor é respeitado, ainda que temas atuais sejam abordados com adesão — mas de forma bem-humorada.
Benny Safdie, realizador de Uncut Gems e da curta-metragem Goldman v Silverman (2020) ao lado do irmão Josh, encarna o vilão que atormenta Happy na sua recuperação: Frank Manatee, empresário desportivo e de bebidas energéticas, notável pela sua halitose. A insistência no mau hálito deste personagem é um dos desvios que o guião — escrito por Tim Herlihy e pelo próprio Sandler — faz às convenções morais dos nossos tempos, assim como a silhueta avantajada do rival de Happy, Billy, interpretado por Haley Joel Osment, flerta com a gordofobia, mas escapa dela. Fica à beira de muitas indelicadezas, mas evita o precipício. Chega à borda apenas para provocar.
Apoiado numa montagem veloz e em fusões inteligentes de imagens do original de 1996, Happy Gilmore 2 parece não temer cancelamentos nem censuras, elevando o padrão visual médio dos Netflix Originals através da paleta de cores dionisíaca da fotografia de Zak Mulligan — mais viva do que o algoritmo dos streamings costuma apresentar. A irreverência com que desafia interditos torna a produção num espetáculo de audácia, capaz de fazer rir com as suas provocações. É um Adam Sandler na sua melhor forma, com a capacidade de reforçar a marca que o tornou um ícone: a sua persona avança com força nos territórios do patético, em arroubos de fúria. Sandler é o palhaço que grita e reage. Um palhaço cheio de som e de fúria.
Fez isso gloriosamente no impagável The Meyerowitz Stories (2017), de Noah Baumbach, nomeado para a Palma de Ouro em Cannes. Na Croisette, Sandler é divo. Um divo de respeito. Não tem esse estatuto apenas lá. Em 2024, o site que mais investe em sondagens, a IndieWire, publicou no seu site oficial uma seleção dos melhores filmes da primeira década do século XXI — os anos 2000 — e incluiu Funny People, de Judd Apatow (2009), além do já citado Punch-Drunk Love. Esta dupla escolha reflete o reposicionamento de uma das estrelas mais populares do planeta, que brilhou na cerimónia do Óscar de 2025, a 2 de março, ao aparecer de sweatshirt no meio de um mar de fatos e gravatas, gozando com a cerimónia ao lado do apresentador Conan O’Brien. Há pouco tempo, exagerou no deboche com Adam Sandler: Love You, hoje disponível na Netflix. É uma versão cinematográfica do seu espetáculo de stand-up, onde canta e faz piada com o seu estilo único de atuar. Esse estilo, que agora recebe elogios (um pouco como aconteceu com Jerry Lewis na viragem dos anos 1950 para os 1960), ocupa cada vez mais espaços de consagração. Um dos indícios de que se tornou de culto foi a inclusão do seu filme anterior, a ficção científica Spaceman, na Berlinale do ano passado.
Desde que Sandler trocou Hollywood pela Netflix, a comédia americana nunca mais teve um blockbuster cómico que se tornasse febre. O último foi Ted (2012), de Seth MacFarlane, que regressa este ano com The Naked Gun – Aonde É Que Para A Polícia (Corra Que A Polícia Vem Aí!, no Brasil), com Liam Neeson a assumir o papel de filho do tenente Frank Drebin, o agente da lei tornado famoso por Leslie Nielsen (1926–2010). O regresso da nova versão pode reavivar a lucratividade do cinema do riso incorreto e desafiar os impeditivos. O lançamento, este mês, de O Maluco do Golfe 2 prepara o terreno para um impacto, aparando a relva que cresceu sob a sombra das patrulhas. É uma apara de risco — e, por isso mesmo, merece aplauso. Sandler continua a ser a maior diversão.
Ps: No Brasil, desde o fim dos anos 1990, nas cópias dobradas (dubladas), Sandler tem Alexandre Moreno como sua “voz oficial” em português.




















