Nascido em Grasse, no sul de França, em 1999, Nathan Ambrosioni começou a sua carreira cinematográfica aos 15 anos, trabalhando em dois filmes de terror durante as férias escolares, “Hostile” (2014) e “Therapy” (2016), além de duas curtas em 2015, “Au bord du lac” e “Miss You”, a que se seguiu “Ce qui nous reste”, também em 2016. Atualmente com 25 anos, o cineasta conta ainda com mais três longas-metragens no currículo, “Les drapeaux de papier” (2018), “Toni en famille” (2023) e “Les enfants vont bien” (2025), o qual acaba de estrear em Karlovy Vary na sua competição internacional.

Quando temos alguém tão maduro aos 25 anos, é difícil não pensar no que fará aos 40”, disse-nos a atriz Camile Cottin numa entrevista, que voltou assim a colaborar com o jovem cineasta numa nova história sobre maternidade, ainda que de forma bem diferente da que vimos em “Toni en famille”, onde a atriz estava no epicentro da história como uma mãe de cinco filhos, antiga estrela musical, que tem a ambição tardia de voltar a estudar.

Em “Les enfants vont bien”, Cottin desempenha o papel de Jeanne, uma mulher “casada” com o trabalho e que terminou uma relação de largos anos com a parceira (interpretada por Monia Chokri) por esta pretender ter filhos. Quis o destino que a sua irmã, Suzanne (Juliette Armanet), desempregada e um pouco perdida no papel de mãe, deixasse 2 miúdos ao seu cuidado,  Gaspard (Manoâ Varvat), de 9 anos, e a irmã mais nova, Margot (Nina Birman), sendo agora ela forçada a tomar conta deles. Lidando complexamente, mas sem juízos de valor pré-estabelecidos, com o desaparecimento da irmã, que apenas lhe deixou uma carta de intenções, Jeanne trafega entre de forma confusa e incrédula entre ambições pessoais esmagadas e novas responsabilidades impostas pela consanguinidade, enquanto a dupla de crianças, também ela estupefata pelo desaparecimento materno, reage imprevisivelmente a cada situação, como que testando a lealdade e amor da nova cuidadora, depois da imposição de um claro sentimento de rejeição após a “fuga” da sua mãe. 

Se o filme inicialmente segue a recusa de Jeanne em acreditar que a irmã realmente poderia ter desaparecido de livre vontade, rapidamente reconstrói o seu foco no crescimento dos laços entre sobrinhos e a tia, que agora terá de decidir, com enorme responsabilidade, se irá assumir (e se tem condições para tal) o papel de mãe e guardiã de crianças, notoriamente afetadas pelo abandono.

Filmado numa Paris irreconhecível, longíssimo de qualquer cartão postal, o que dá ao filme o sentimento de história que poderia acontecer em qualquer lado, Ambrosioni prossegue assim o seu estudo sobre maternidade, com a devoção aos filhos e a liberdade novamente na equação, mas com cartas diferentes para lançar, quando colocado lado a lado com “Toni en famille”. É que se no filme de 2023 navegávamos entre a entre a comédia social e o filme íntimo familiar, com Camille Cottin a questionar se há algo mais além do ser mãe, aqui observa-se e salta a vista a forma arrojada, mas sempre delicada, como Ambrosioni pondera se o abandono não poderá ser um ato de amor.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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