Macabro e absurdo, extremamente teatral e orgulhoso disso, “Dead Lover” concorreu com “They Come Out of Margo” como uma das mais bizarras experiências que passaram pelas telas do Festival de Karlovy Vary, na República Checa, isto depois de uma estreia no Festival de Sundance.
É com uma citação de Mary Shelley que esta alucinante releitura de “Frankenstein” arranca, mostrando logo ao que vem no seu design de produção (filmado num teatro caixa-preta, não em locações), visuais (cores saturadas sustentadas a iluminação artificial), nas interpretações (evocativas e teatrais, executadas por apenas 4 atores), efeitos visuais (práticos e minimalistas) e espírito narrativo (picante, erótico e repleto de humor negro). A sua forma artesanal confere ao filme um inevitável charme gótico que convoca paixões cineclubistas e festivais de cinema de horror, mas a sucessão de piadas, muitas delas destinadas ao insucesso pela constante gímnica de convocar o exagero e o non sense, tornam o filme a certa altura exaustivo na sua infindável busca pela diversão.
No centro de tudo está a Coveira (Grace Glowicki), que anseia por um amante eterno, mas é frequentemente desprezada por cheirar tão mal quanto os cadáveres em decomposição que enterra. A sua eterna solidão poderá estar a terminar quando encontra um homem (Ben Petrie) que não se incomoda com o seu fedor e jura se enamorar dela. Uma vida maravilhosa parece estar destinada aos pombinhos, mas o homem decide partir numa viagem ao outro lado do Atlântico para recorrer a uma nova técnica medicinal que poderá inverter a sua parca contagem de espermatozoides. O amor não se quebra entre os dois, mas quando um acidente na embarcação vítima o grande amor da vida da coveira, esta utiliza o que resta dele, um dedo, que um grupo de pescadores lhe traz, para tentar reavivar a sua paixão, através da magia de implantação num dos corpos que enterra diariamente. Claro está que o resultado terá consequências imprevisíveis, soltando igualmente a ira de um homem desgostoso por ter sido utilizado o cadáver do seu amor para reavivar o espírito da paixão da coveira.
Durante os quase 90 minutos do filme, ou filmagens de uma espécie de teatro trash, o espectador encontrará vários momentos para rir, como aquele caricato momento em que uma dupla de freiras surge em cena, ou nas conversas de um tridente de fofoqueiras recorrentes na narrativa. Porém, quando a ação se centra apenas na coveira e na busca para fazer ressuscitar o seu amor, tudo se estende em demasia, sejam as cenas, sejas as graçolas, provocando mais enfado (e repetição) que frescura e irreverência.
Ainda assim, na sua influência retro, arrojo e inventividade de dar ao clássico de Shelley uma nova vida com o seu quê de feminista com algumas doses de erotismo, “Dead Lover” não é de todo uma experiência perdida. Pelo contrário, é um filme com méritos conceptuais que apenas não consegue sustentar o tempo que devia o interesse do espectador.




















