Baseado no livro homónimo do jornalista e escritor checo Aleš Palán, que documenta a vida dos irmãos gémeos Franta e Ondra, que vivem recatadamente e partilham a sua casa, terrenos de cultivo e exploração animal junto às Montanhas Sumava, na República Checa, “Better Go Mad in the Wild” é um documentário híbrido assinado por Miro Remo, o qual, juntamente com a sua equipa, passou 60 dias com os irmãos ao longo de cinco anos, reduzidos a cerca de 86 minutos que frequentemente desafiam as convenções do documentário e do storytelling.

E esse desafio autoral, onde muitas vezes se confunde o real com a ficção de duas personagens a fazerem de si mesmas, e onde até mesmo alguma da narração vem por parte de vacas e bois presentes no cenário de vida dos irmãos, está muito articulado com o brilhante trabalho da direção de fotografia, de Dušan Husár, e dos montadores Simon Hájek e Maté Csuport, que nos oferecem uma verdadeira tour ao inusitado que o júri de Karlovy Vary descreveu com viagem à liberdade. 

Com o seu papel na Revolução de Veludo de 1989, via a distribuição de panfletos e livros contra o regime comunista, pelos quais foram condecorados, František e Ondřej Klišík falam do passado, do presente e do futuro, discutem e abraçam-se, embirram frequentemente um com o outro e soltam pedaços de uma existência e relacionamento humano complexo que nunca foi bem recebido pelas mulheres com que se relacionam no passado. Nas suas palavras, e compreensivelmente, as mulheres sempre encontraram dificuldades em se adaptar à dinâmica peculiar entre Franta e Ondra, mesmo que a construção de uma parede a dividir a casa tentasse criar algum tipo de intimidade e separação às suas vidas. Mas seria isso possível? Não creio e, frequentemente, os próprios irmãos questionam isso, abordando até temas mais duros, como a morte e a ausência de um antebraço de um deles, com tanta leveza como humor negro. 

Na essência, estes parecem dois homens com o eterno Síndrome de Peter Pan, da “recusa em crescer”, ou será que a opção de não seguir a vida tradicional da “maturidade obrigatória”, transformada em Síndrome de Peter Pan, não é apenas mais um mecanismo de supressão da liberdade por parte da sociedade? Não é uma questão respondida por Miro Remo, pois este não é um filme de respostas, mas também não se perde, verdadeiramente, em perguntas. Isso não implica que o espectador não as faça, tal como reflexões de diversa ordem, pois é confrontado com uma vida de tal maneira livre, que a sociedade facilmente apelida de anarca.

Alguns dos momentos mais marcantes do filme surgem depois da intromissão de um enorme espelho na narrativa, um objeto que, apesar de agora ter uma manifestação física, existiu sempre na vida da dupla, principalmente pelo facto de serem irmãos gémeos idênticos. E seja a dupla de irmãos a carregá-lo às costas, ou a olhar perdidamente para ele, esse espelho consegue produzir, esteticamente, alguns dos momentos mais poéticos e belos de uma viagem tão absurda como cativante. E embora a vida conjunta da dupla não os afaste verdadeiramente da solidão, existe neles um conforto, liberdade e amor incondicional que torna a sua história verdadeiramente apaixonante.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
better-go-mad-in-the-wild-um-espelho-eterno-de-vidaAlguns dos momentos mais marcantes do filme surgem depois da intromissão de um enorme espelho na narrativa, um objeto que, apesar de agora ter uma manifestação física, existiu sempre na vida da dupla, principalmente pelo facto de serem irmãos gémeos idênticos.