Tal como numa escavação arqueológica, em que cuidadosamente se varre a terra e o pó para encontrar evidências do passado, o trauma, na sua assumpção e reconhecimento, tem de ser “escavado” lentamente e sem pressas por entre as múltiplas cavernas e portas da mente, e é isso que o catalão Pere Vilà Barceló faz no seu mais recente projeto, “Quan un riu esdevé el mar, prosseguindo um caminho de autor que se define com “responsabilidade social”, que não começou aqui, mas bem antes, em filmes como “El vent és això” (2018), sobre desordens alimentares, e “La Fossa” (2014), onde revisita um espaço fulcral na Guerra Civil Espanhola após a descoberta de uma vala comum. 

Em “Quan un riu esdevé el mar“, Gaia é uma jovem estudante de arqueologia na universidade. Ela vive com o pai, um aspirante a biólogo transformado em padeiro por legados familiares, e logo na primeira imagem do filme percebemos que, apesar de estar presente fisicamente na nossa frente, a sua mente vagueia por algures e nenhures, como que esvaziada e assolapada por uma letargia devastadora. Enfiada nas profundezas da sua psique, sem que qualquer palavra saia para explicar ou descrever o seu estado de espírito e o que sente, Gaia vai lentamente e progressivamente desenterrando fragmentos de um evento passado com o namorado, para o qual ainda não tem as palavras concretas de descrever. A verdade é que a sua alegre forma de viver, que nunca conhecemos, mas percebemos pelas conversas com o pai, parece ter desaparecido sob a poeira de um evento que não se limitou a transformá-a, mas de certa forma “matou” a jovem que todos conheciam. Será com a ajuda de uma professora, que tenta perceber porque de repetente a jovem parece ter deixado de ter interesse na Arqueologia, que Pere Vilà Barceló nos leva, durante 180 minutos, às profundezas trágicas do trauma, causando frequentemente um enorme desconforto no espectador à medida que a jovem vai percebendo, ou antes, assumindo perante si mesma e os mais próximos, que foi vítima de uma agressão sexual. Esse assumir e a transformação comportamental que se segue afeta também aqueles que estão à sua volta, em particular o pai que, em nenhum momento, mesmo chegando a ser bastante intrusivo, se afasta dela num processo de recuperação (e sobrevivência), mas não verdadeiramente de cura.

Nesta longa viagem ao que de mais negro nasce em nós, Pere Vilà Barceló, que se documentou durante largos anos junto de jovens abusadas  bem como de psicólogos, muitas vezes parece criar um manual do trauma e do “escavar” até chegar à origem. Isso sente-se na conversa da professora com Gaia, não diferente das técnicas usadas pela psicologia e até forças da lei para que as vítimas de abuso compreendam o que lhes aconteceu, e muitas vezes afastam do cenário qualquer noção de responsabilidade pelo que aconteceu. Também frequentemente, o sofrimento da jovem (pesadelos, necessidades de estar sozinha, ataques de pânico) chegam ao espectador com grande violência, que o cineasta atenua com ausências de iluminação, ficando apenas o ecrã negro e o som (nas palavras, gritos e choros de Gaia), nas suas conversas com o pai, numa exposição cabal do sofrimento que pisa a linha ténue entre a exposição e a exploração. Numa outra cena, em que Gaia corre desalmadamente descalça, ferindo violentamente os pés, demonstra-se claramente o desejo de encobrir a dor mental com a dor física, num ato extremo de um escape temporário.

Dificílimo de assistir, não pela sua duração, pois o trauma e o após prolongam-se por muito mais tempo que isso (às vezes uma vida toda), “Quan un riu esdevé el mar é de uma violência psicológica tremenda para quem o assiste, mas, quer queiramos, quer não, esse desconforto será sempre menor que o ato ocorrido à jovem e o sofrimento que veio depois.

Uma nota final para o magistral registo de Claud Hernández na interpretação de Gaia, sempre acompanhada por um incansável Àlex Brendemühl no papel do seu pai.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/g7vj
Pontuação Geral
Jorge Pereira
quan-un-riu-esdeve-el-mar-a-arqueologia-do-trauma Pere Vilà Barceló, que se documentou durante largos anos junto de jovens abusadas  bem como de psicólogos, muitas vezes parece criar um manual do trauma e do “escavar” até chegar à origem.