Colonialismo e neocolonialismo chocam com a violência do embate de um meteorito em “La anatomía de los caballos”, longa-metragem estreia de Daniel Vidal Toche, que usa dois tempos, o século XVIII e a atualidade, para continuamente e acirradamente falar de mecanismos de opressão e exploração, num Peru como que preso num ciclo ininterrupto de corrupção.

Visualmente poderoso, com destaque para a fotografia de Angello Faccini, mas (muito) lento no ritmo e frequentes vezes silencioso na narração dos eventos, o espectador é confrontado inicialmente com o revolucionário do século XVIII, Ángel Pumacahua, que, derrotado em batalha, foge para a sua aldeia. Com um meteorito como sinal, que passa como pano de fundo de cabos de alta tensão, percebemos que o revolucionário está agora nos Andes peruanos do século XXI, assistindo à luta do seu povo contra a exploração mineira que os atormenta e cuja poluição começa a destruir plantações e a fazer nascer animais com as mais diversas mutações. 

O desaparecimento de uma jovem serve igualmente de Macguffin na atualidade para explorar a castração neocolonialista das populações perante os poderes económicos e políticos, sempre interessados no lucro e no dito “crescimento para o bem comum”. É numa festa popular, providenciada pela empresa mineira, uma forma de marketing e de entretenimento da população (“o pão e circo” das campanhas políticas, como se diz), que Ángel vai travar conhecimento com a irmã da desaparecida, Eustaquia, que muitos dizem ter se desvanecido por causa do meteorito, enquanto outros acreditam que essa ausência pode estar ligada à luta contra a exploração mineira na região.

E tal como há séculos atrás, religião e superstição são usados como desculpa e ferramenta do poder instituído para cegar e calar os descontentes, mostrando que de há séculos para cá a história peruana não mudou verdadeiramente e que o colonialismo, sobre novas vestes, permanece a criar disparidades brutais nas classes sociais e crimes ambientais por todo o lado.

Com um elemento fantástico (ainda que natural, na forma de um meteorito) como chave simbólica para a ligação entre duas eras, o filme pisca o olho ao realismo mágico sul-americano, mas acima de tudo faz o espectador contemplar uma luta com tudo para se tornar milenar, questionado-se ainda, existencialmente, se a revolução é algo inerente ao ser humano e permanente ou apenas uma construção que estamos destinados a perseguir para todo o sempre.

O resultado final é um filme que Daniel Vidal Toche entrega ao espectador com todo o sentido de urgência e relevância, apresentando-se pois como uma das mais poderosas entradas da secção Proxima do Festival de Karlovy Vary.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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