No dia 24 de abril de 2013, três mil mulheres e homens entraram no Rana Plaza para trabalhar, um edifício de oito andares no subúrbio de Dhaka, Bangladesh. Pouco depois, o prédio desabou, matando cerca de 1.100 pessoas e ferindo o restante. Em 2005, 2006  e 2012 acidentes deste tipo também aconteceram, cometidos por donos de fábricas, cujas instalações são perigosas, onde trabalhadores enfrentavam longas jornadas de produção trabalhando em máquinas antigas, operários cujas vidas são submetidas aos imperativos das ‘’fábricas-prisões’’ neste país. 

As empresas multinacionais europeias, e não só,  terceirizam os serviços da indústria têxtil, aumentam seus lucros, poluem os países periféricos e exploram a força de trabalho local. Uma indústria que sustenta uma cadeia de commodities transnacional, incluindo a força laboral, em sua maioria, de mulheres do interior de Bangladesh, mulheres que não encontram trabalho em suas aldeias de origem. Elas costuram roupas para as lojas do mundo ocidental, de marcas tais como: Benetton, Prada, Gucci, Versace e Zara, entre outras. Marcas que provavelmente alguma vez na vida você e eu já compramos alguma vestimenta, facto que me envergonha ao saber desta realidade.

O Bangladesh é um dos maiores exportadores de têxteis do mundo, indústria que é um dos principais motores da economia do país. As mulheres representam grande parte da força de trabalho desta indústria, em condições de trabalho precárias, são costureiras que trabalham por salários baixíssimos e em ambientes insalubres. 

Incêndios e problemas estruturais em fábricas têxteis são uma preocupação ainda hoje constante, afetando a segurança das trabalhadoras. As empresas têxteis preferem as mulheres por serem mais dedicadas, eficazes e por, supostamente, serem mais fáceis de controlar, muitas delas sustentam os filhos.

“Made in Bangladesh” (2019) trata disso, um filme realizado pela bengali Rubaiyat Hossain (44 anos, ela se formou em Cinema na New York Film Academy em 2002). Obra inspirada numa história verídica. No filme uma trabalhadora têxtil decide criar um sindicato para melhorar as condições laborais. A câmara regista o drama diário de um grupo de trabalhadoras de uma fábrica de vestuário em Dhaka, Bangladesh. 

Mulheres jovens que diante de péssimas condições de trabalho lutam para formar um sindicato e reivindicar os direitos trabalhistas, depois de uma delas ter morrido num incêndio na fábrica onde era explorada. 

Shimu (Rikita Nandini Shimu), uma mulher de 23 anos torna-se a líder do grupo, fotografa às escondidas o seu local de trabalho, obtém as necessárias assinaturas e pressiona funcionários do Ministério do Trabalho (intimidados pelo dono da fábrica têxtil) para liberar a papelada da criação do sindicato, que vai mudar as vidas das costureiras.

Os chefes das operárias (interpretados por Azaz Bari e Shatabdi Wadud) retém os salários delas e as obrigam a dormir na fábrica para acelerar a produção, diante do prazo curto para a entrega das roupas. Elas até então, ignoravam os seus direitos. Por sua vez, o marido de Shimu tenta cercear a sua liberdade, mesmo desempregado e sendo ela a sustentar a casa. Ela acaba por reagir e segue decidida a criar o sindicato, orientada por uma advogada (Shahana Goswami) que defende os direitos trabalhistas femininos.  Shimu, ultrapassa muitos obstáculos, incluindo a cultura patriarcal representada no filme por estes três homens, e não desiste do objetivo de sindicalizar a fábrica de roupas onde trabalha e reinvindica os direitos das mulheres. Torna-se ativista e influencia as colegas de trabalho, numa sociedade em que os homens, na sua maioria, são sustentados pelas mulheres, e querem controlar a individualidade e a liberdade delas.

Durante 1h35 min, a realizadora Rubaiyat Hossain cria um retrato do empoderamento feminino em Bangladesh –  uma história sobre emancipação feminina, e destaca a resistência e luta, em busca de melhores condições e direitos laborais para as mulheres bengalis do setor têxtil. 

Nos seus filmes anteriores, Hossain também valoriza os direitos das mulheres. Na sua primeira longa-metragem, “Meherjaan” (2011), e na segunda, “Under Construction”(2015), aborda os problemas sociais do seu país com o olhar e protagonismo feminino. 

A luta das mulheres é uma luta constante, seja dentro ou fora de casa, de qualquer classe social ou país. Entretanto, sendo os obstáculos, em países fora do Sul Global,  mais ampliados para as mulheres, assim como a disparidade de direitos entre mulheres e homens, principalmente, no mundo laboral. 

A experiente diretora de fotografia de “Made in Bangladesh”, a belga Sabine Lancelin (1959-), consegue capturar nas imagens do filme, o privado e o coletivo, a precária vida cotidiana dos habitantes de Daca, Bangladesh, o movimento caótico das ruas estreitas, sujas e lamacentas, o trânsito de motos, carros e autocarros velhos, uma multidão sufocada pelo fluxo ruidoso da grande cidade, a opressão sofrida pelas mulheres dentro da fábrica e em família, e os seus sentimentos quando estão na intimidade dos lares. A agitação diária das ruas e o barulho das máquinas de costura na fábrica, compõem o som ambiente do filme. Lancelin colaborou nos filmes da cineasta belga Chantal Akerman. 

É a primeira vez que vejo um filme feito por uma mulher cineasta de Bangladesh, segundo a pesquisa que fiz ela é a única. Já realizadores homens existem alguns. Para mim é importante dar visibilidade ao cinema feito por mulheres, principalmente, realizadoras fora dos países mainstream. O filme “Made in Bangladesh” foi distribuído em PT pela Midas Filmes, está no site da Filmin PT e recentemente foi exibido na RTP2. Não perca esta chance, RECOMENDADO!

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Lídia ARS Mello
made-in-bangladesh-sobre-direitos-trabalhistas-femininosDurante 1h35 min, a realizadora Rubaiyat Hossain cria um retrato do empoderamento feminino em Bangladesh - uma história sobre emancipação feminina, e destaca a resistência e luta, em busca de melhores condições e direitos laborais para as mulheres bengalis do setor têxtil.