Existe um fundamento ético na base da estética panóptica do haitiano Raoul Peck, orientada por instintos e lógicas decoloniais. “O meu papel político na arte é recuperar a História. Não fui fazer cinema para ter uma carreira nos media. Fui fazer cinema por necessidade política”, afirma o realizador. Ernest Cole: Achados e Perdidos, filme que lhe valeu o prémio L’Œil d’Or em Cannes, em 2024, e que estreou no Brasil neste fim de semana, reúne fotografias do artista sul-africano e aplica sobre elas um filtro semiótico coerente com a carta de intenções explicitada por Peck nas palavras recolhidas pelo C7nema na Croisette, há um ano.
O conceito de passado e de presente que atravessa a obra do cineasta tem raízes em reflexões filosóficas do continente africano, assentes numa relativização sobre onde começa o Ontem e onde termina o Hoje. Existe, no relato do pretérito — perfeito ou imperfeito —, uma gradação ficcional ditada pela fonte cuja versão é adoptada como verdade. Os factos, numa memória assumida como universal, são sempre vectorizados pelo discurso do poder vigente. Houve um momento em que a América do Norte procurou concentrar esse poder, projectando-se como império, antes da ascensão da China e da transformação da Europa num museu a céu aberto — o museu de uma derrota simbólica nascida não apenas das guerras, mas da mediatização do controlo.
O comando do mundo passou a operar através de dispositivos digitais vendidos como mecanismos de comunicação, mas que funcionam, na essência, como veias de vigilância, onde, como antecipou Michel Foucault, vigiar é punir — pela exclusão. Para compreender essas operações semiológicas no domínio da não-ficção, Peck criou intersecções entre práticas artísticas e geografia humana. Ganhou projecção internacional com I Am Not Your Negro (2016), nomeado para o Óscar, ao partir da prosa de James Baldwin (1924–1987) para mapear o racismo estrutural. Em Ernest Cole: Achados e Perdidos, transfere esse olhar para o território da imagem fotográfica.
O seu exercício autoral mais recente, Orwell: 2+2=5, um dos grandes destaques da secção Cannes Première 2025, regressa à literatura ao abrir o arquivo memorial de George Orwell (1903–1950), autor de Animal Farm (O Triunfo dos Porcos em Portugal; A Revolução dos Bichos no Brasil, 1945). Na obra de Orwell existe uma fábula sombria e um certo catastrofismo, mas também um núcleo teórico de matriz marxista que expõe como a transcendência social inerente à luta de classes foi desvalorizada e sofismada pela retórica do capitalismo. A sua carpintaria literária convoca as ciências sociais — território onde Peck se instala plenamente.
O filme assume um registo jogralesco, amalgamando infografias, imagens de arquivo, excertos noticiosos e Cinema, numa desconstrução crítica das adaptações mais conhecidas da obra orwelliana. Não se trata de um filme “sobre” Orwell, mas de um filme “com” Orwell, respeitando os seus feitos e mantendo-os nas franjas da narrativa. A voz de Orwell é entregue ao intérprete Damian Lewis, num gesto de evocação memorialista.
Uma vez mais, a cartilha da biografia é alargada pelo realizador de L’Homme sur les quais (1993), que parte de Nineteen Eighty-Four (1949) para dissecar os estratagemas mediáticos que reduzem o pensamento crítico a obediência maquinal. O sociólogo jamaicano Stuart Hall (1932–2014), autor de Identidades Culturais na Pós-Modernidade, surge como paralelo intelectual decisivo para compreender as teses de Peck. Segundo Hall, “foi a presença europeia que, na representação visual, colocou o sujeito negro dentro dos seus regimes dominantes de representação” — do discurso colonial ao exotismo turístico, da literatura de exploração às linguagens violentas do Cinema e da pornografia urbana.
Orwell, homem branco britânico, nascido numa Índia marcada por um sistema de castas violento, serve a Peck como ponto de observação para compreender como o Velho Mundo instituiu a intolerância como método de hierarquização, sem perceber que estava a alimentar a besta que acabaria por o devorar: os Estados Unidos, enquanto projecto imperial.
Hall defende que o pós-guerra fragmentou as metanarrativas europeias — discursos totalizantes que pretendiam explicar o Humano como imperativo categórico. A emergência de políticas de emancipação — antirracismo, feminismo, lutas queer — ofereceu novos rumos ao planeta. Contudo, as forças mediáticas ao serviço do capital procuram neutralizar essas diferenças, convertendo o que deveria ser aliança em preconceito. Para sustentar essa leitura, Orwell: 2+2=5 revisita as adaptações cinematográficas de 1984, realizadas por Michael Anderson e Michael Radford, analisando como a figura do Grande Irmão se transformou em mito destinado a ocultar os processos de exploração.
Em paralelo, Peck constrói uma colagem factual com dados sobre as grandes empresas que controlam a informação e tentam cercear a nossa liberdade de somar dois mais dois fora das cartilhas de uma ciência desumanizada. Numa montagem frenética — e autoconsciente — assinada por Alexandra Strauss, o realizador desmonta certezas consolidadas, inventariando as miopias que impedem a prática da solidariedade, palavra central no pensamento de Orwell.
Crítica originalmente escrita em maio de 2025




















