Depois de ter interrompido o seu ciclo de filmes em Marrocos (Mimosas; Todos vós sodes capitáns) para filmar “O Que Arde” na sua Galiza, o galego nascido em Paris Oliver Laxe aventurou-se novamente pelo Norte de Africa para concretizar um thriller dramático explosivo que o próprio, em 2019, confidenciou ao C7nema inspirar-se em “Mad Max“, “Easy Rider” e ”Stalker“.

Escolhendo o deserto e a cultura das raves para nos levar na busca por uma jovem desaparecida há meses, Oliver Laxe escolhe um ator profissional (uma raridade no seu cinema), Sergi López, para o protagonismo. Ele é Luiz, um homem que carrega em si o rosto do desespero. Ele partiu para Marrocos, juntamente com o filho pré-adolescente, Estebán (Bruno Nuñez), e a cadela, Pipa, em busca da filha adolescente, que deixou de dar notícias algures faz uns seis meses. Enquanto vagueia pela festa e por entre os tecnómadas que a habitam, Luís vai ouvindo palavras de conforto, algumas dicas, mas nunca um sim de reconhecimento perante a fotografia (da filha) que transporta.  No pano de fundo de tudo isto, como se não bastasse, além das paisagens brutais aglutinadas por jogos de luzes noturnos e uma música trance que nos invade e hipnotiza os sentidos durante grande parte do filme, temos ainda uma Guerra Mundial a decorrer. Sobre ela, apenas temos acesso via escassas notícias na rádio, sempre sem grandes detalhes. A verdade é que  Laxe esconde do espectador uma estrutura para esse conflito, retirando-lhe assim importância temática, mas adicionando mais uma camada negra e claustrofóbica que vai pairar por entre todas as personagens e espectadores.

Como o carro de Luís é um daqueles veículos ligeiros alugados que não está, de forma alguma, preparado para atravessar a paisagem, seja pelas frequentes montanhas rochosas e pedregosas, seja pelos riachos, ou zonas desérticas áridas repletas de perigos, a sua sorte é “perseguir” um grupo de nómadas (Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Jade Oukid, Richard “Bigui” Bellamy, Tonin Janvier) que não acatou as ordens das autoridades marroquinas de ficarem sobre a sua vigilância após a invasão do espaço da Rave. Fugindo pelo deserto fora em duas carrinhas, este grupo e Luís criam uma ligação de empatia e partilha, conjugando esforços para atravessar barreiras estrada à fora, tudo para chegarem a uma outra festa clandestina no deserto, que poderá ter a chave para o mistério da desaparecida. 

Como na maioria do seu cinema, quer os momentos estacionados na rave no deserto, quer na road trip em que o filme se transforma, ou no jogo letal de horror em que desagua, Laxe filma a sua ficção em estreita conexão com um olhar profundamente documental. Isso acentua-se igualmente na mistura entre a presença no elenco de atores (como Lopez) no meio de não-atores (que usam os seus próprios nomes para o enredo e representam no filme uma versão de si mesmos), os tais nómadas eletrónicos que com ele fazem um percurso a que o cineasta não esquece de dar o seu misticismo e mitologia.

Sempre num ritmo estonteante, marcado por uma banda-sonora absorvente, criada por Kangding Ray, e numa paisagem tão fascinante como assustadora, “Sirât” revela-se sempre um filme preparado para nos surpreender, evocando o tal caminho ou ponte entre o paraíso e o inferno a que o seu título se refere. Definindo, numa entrevista ao C7nema, o papel do cineasta como alguém entre o terrorista e o santo, Oliver Laxe visita os dois campos por aqui, arrastando-nos por entre barreiras e tragédias, todas elas incapazes de nos deixar indiferentes.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
oliver-laxe-faz-a-ponte-entre-o-paraiso-e-o-inferno-no-desarmante-siratComo na maioria do seu cinema, quer os momentos estacionados na rave no deserto, quer na road trip em que o filme se transforma, ou no jogo letal de horror em que desagua, Laxe filma a sua ficção em estreita conexão com um olhar profundamente documental. Isso acentua-se igualmente na mistura entre a presença no elenco de atores (como Lopez) no meio de não-atores (que usam os seus próprios nomes para o enredo e representam no filme uma versão de si mesmos)