Com toda a pressão em cima dos ombros de carregar com ela a Palma de Ouro pelo divisivo “Titane”, Julie Ducourneau regressou a Cannes com um novo projeto desafiante, desta vez pegando na epidemia da Sida, mas nunca a nomeando, criando uma alegoria, que vai dos anos 1980 aos 1990, que se foca num tridente de personagens afetadas pela toxicodependência e contaminação de uma estranha maleita, definida espiritualmente como vento vermelho.

Esse tridente é composto pela Alpha titular (Melissa Boros, numa atuação extraordinária), uma menina de 13 anos, órfã de pai, que vive com a mãe (Golshifteh Farahani), uma enfermeira. Com elas está também o tio da menina (Tahar Rahim), que vive sob a dependência da heroína, uma praga oitentista que, pela troca de seringas em tempos em que as descartáveis eram um miragem, levou à contaminação de uma geração. O essencial do filme decorre já na década de 90, visitando Julie a década de 1980 através de flashbacks, os quais nos mostram porque a certa altura, e devido à toxicodependência do irmão, este foi afastado do seio familiar, regressando apenas mais tarde e já doente. 

Capturando o sentido de paranoia em relação à doença, que era uma sentença de morte na época, a cineasta joga com ideias erradas da época (que a Sida se transmitia pela saliva, pelo toque, etc… que se curava pela água) para criar um drama que não omite o seu sentido de thriller quando a pequena Alpha, após “apagar” numa festa, acorda com uma tatuagem no braço, ficando a dúvida se a agulha que marcou a sua pele tinha sido partilhada por mais alguém. Esse ato desperta também a ansiedade e obsessão da mãe da pequena, que após ver o irmão contaminado tem agora pela frente a hipótese da própria filha também estar entregue à doença. Uma cena numa piscina, magistralmente ensaiada e coreografada pela realizadora, torna-se o símbolo máximo do medo e paranoia da contaminação. E tal como em “Jaws”, uma multidão na praia se afasta de um predador implacável bem visível, ou seja, um tubarão branco, em “Alpha” é um grupo de nadadores que esbraceja em todas as direções após Alpha bater com a cabeça na parede e jorrar sangue na água. 

Possuidora de um sentido estético extraordinário, a realizadora de “Grave” dá também aos portadores da doença uma nova fisionomia. Assim, ao invés das machas na pele que denunciaram, por exemplo, Tom Hanks em “Philadelphia” (1992), o corpo dos contaminados vai lentamente se transformando em pedra mármore, criando uma ambiguidade de percepção do belo perante o horrível da contaminação. Essas são as marcas essenciais na obra de Julie Ducourneau, o Body Horror, que aqui joga com o grotesco de uma forma muito mais polida e sólida (sem trocadilhos), o que vai casar bem com o essencial que a cineasta quer focar na sua delicada história: a relação emocional entre um tridente familiar que, com doses magistrais de atuação, nos entrega um dos filmes de maior sensibilidade e mais tocantes do Festival de Cannes. E sim, este é um filme familiar, ao jeito Ducourneau.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
alpha-julie-ducourneau-regressa-com-tocante-alegoriaO Body Horror, que aqui joga com o grotesco de uma forma muito mais polida e sólida (sem trocadilhos), vai casar bem com o essencial que a cineasta quer focar na sua delicada história: a relação emocional entre um tridente familiar.