Não é todos dias que vemos um comediante engasgado de emoção na apresentação de um filme, em pleno Teatro Croisette, o quartel-general da Quinzena de Cineastas. E quando o filme que vem apresentar é realizado no seu país natal, os Camarões, seguindo as convenções dos thrillers policiais, são escassos os objetos dessas paragens que conhecemos para poder fazer qualquer tipo de comparação, nem que seja de procedimentos. A verdade é que Thomas Ngijol foi selecionado para a Quinzena com uma primeira longa-metragem bem longe do tipo de comédias que participa (Le Grand Journal, Jamel Comedy Club, Selon Thomas…), fazendo um retrato simples, curto, mas sempre incisivo, pragmático e comprometido com a realidade camaronesa, nas suas fragilidades e poderes.
Depois de assistir e ficar completamente obcecado com o documentário de 1998 “Un crime à Abidjan”, Ngijol chateou tanto a sua esposa com o tema que esta propôs-lhe que ele fizesse um filme sobre isso. Mudando a localização dos eventos da Costa do Marfim para os Camarões, ele meteu as mãos à obra na escrita do guião, mas a obsessão era tanta que chamou a terreno outro argumentista, Patrick Rocher, que ajudou o ator transformado em realizador a distanciar-se do material. Em “Indomptables” acompanhamos a forma como Billong (Ngijol), um detetive, e os colegas tentam descobrir e capturar um grupo de criminosos que matou a sangue frio um polícia. Mas se este é o esqueleto deste filme com menos de 90 minutos, a carne reside nas múltiplas camadas de investigação em torno da personagem de Billong, e a pele na observação, ora apaixonada, ora destrutiva, com realidade política, económica, social e cultural dos Camarões.
Já com uma mão cheia de filhos e com outro a caminho, Billong trata os miúdos com punho de ferro, razão pela qual a única filha, já jovem adulta, saiu de casa e não quer sequer ouvir falar dele. Quem sofre mais agora a pressão deste homem é o filho mais velho, constantemente humilhado, para desespero da mãe, pelas traquinices habituais da adolescência. Na esquadra onde trabalha, Billong é também implacável, mantendo sempre uma postura paternalista para com os súditos, mas mostra (quase sempre) um jeito exemplar do cumprimento da lei. E dizemos “quase sempre” porque ele não suporta que agentes policiais cometam infrações, excluindo dessa “moral” a tortura banalizada a que os suspeitos dos crimes são sujeitos. Mas mesmo assim, até nesse território, ele põe barreiras e limites, não vá algum dos suspeitos morrer, ser provado que é inocente e “cair o Carmo e a Trindade” sob as forças da lei e a sua posição de líder.
Se observarmos atentamente “Indomptables”, constatamos que seja nos procedimentos policiais, nas críticas políticas ou sociais, e até nas relações pessoais, o filme não tem absolutamente nada de novo para oferecer, movendo-se por entre os clichês de género e demais convenções. Porém, o seu charme está no retrato de Yaoundé e Thomas conseguir nos levar com ele às ruas do país e às suas gentes, sempre afastado do olhar antropológico, etnográfico ou do exótico.
A verdade é que tratando-se de um primeiro filmado com escassos recursos e um elenco quase exclusivamente local, percebemos que Thomas Njigol demonstra potencial, nem que seja pela honestidade brutal no retrato de personagens falíveis, bem longe de qualquer arquétipo do herói policial. E só por isso, “Indomptables” merece uma olhadela sem qualquer tipo de paternalismo cinematográfico.



















