Citados numerosas vezes em O Agente Secreto, por meio de Jaws(1975) e por ataques de criaturas marinhas, os tubarões voltaram a mobilizar o imaginário de Cannes deste ano, pelas vias da Quinzena de Cineastas, com a quota anual trash do evento: o survival horror Dangerous Animals. É a Austrália que está no topo desta produção nas raias do filme B… e também no centro do quadro, como arena de um enredo de luta pela vida. O monstro principal, contudo, não é uma fera de guelra e barbatana e, sim, um serial killer que tortura as suas vítimas a oferece-as como petisco para as presas dos peixes carnívoros que Hollywood celebrizou como bestas hediondas.

Vindo da Tasmânia, Sean Byrne comanda com vigor a realização, ao aplicar as cartilhas dos shark movies com todas as reviravoltas exigidas pelos fãs, com direito a sequências em que os tubarões desafiam as leis da gravidade. Essas não podem faltar. O diferencial de excelência aqui reside na luz estruturada pela diretora de fotografia Shelley Farthing-Dawe a partir do colorido natural à sua volta. As suas imagens noturnas são o ápice do esmero plástico do seu trabalho, por ampliar a sensação de isolamento do barco onde a maior parte do enredo se desenrola.

Íntimo do terror desde The Devil’s Candy, filmado em 2015, Byrne extrai ferocidade de um inspirado Jai Coutney, o Capitão Bumerangue da DC em Suicide Squad. Ele vive Tucker, um instrutor de mergulho que se aproveita da ingenuidade de clientes para raptá-los e servi-los como acepipe para os tubarões que rondam o perímetro aquático onde ancorou. A sua maldade é desmedida e alimenta o ritual dos jumps scare no qual o realizador embarca, sem culpa, sem puro. Ele quer mostrar sangue… e mostra. A heroína, Zephyr (Hassie Harrison) é uma turista avessa aos mandamentos da alimentação regrada e da honestidade que tem uma noite de amor com um surfista local, Moses (Josh Heuston, em firme atuação), e decide contrariar as flechas do Cupido ao recusar-se a rever o rapaz.

Quando ela cai nas garras de Tucker, numa das emboscadas sazonais que ele faz a estrangeiros, o smartphone dela perde-se e é encontrado por Moses. Por amor, ele vai atrás dela, que passa por um calvário nas mãos do parafinado malfeitor, que não poupa nem os cães. A ruindade dele é mote para Byrne esboçar uma reflexão sobre Natureza x Civilização, numa discussão sobre a selvageria e a perversão. Nada se aprofunda, mas muita coisa diverte – Jai em especial.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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