“Fortis fortuna adiuvat“. Assim diziam os romanos: “a sorte favorece os corajosos”. Porém, no caso da cineasta escocesa Lynne Ramsay, a sua ausência das salas de cinema, desde o brilhante “You Were Never Really Here” (2017), mostra como no mundo do cinema a ousadia nem sempre é recompensada.
Perita em filmar espaços e personagens onde o trauma, angústia, pesadelos e sonhos convivem lado a lado — vide “Ratcatcher” (1999), ”A Viagem de Morvern Callar” (2003) e “Temos de Falar Sobre Kevin” (2011), além do drama protagonizado por Joaquin Phoenix —, Ramsey tinha (e ainda tem) diversos projetos alinhavados para avançar (“Polaris”, com Joaquin Phoenix e Rooney Mara no elenco; uma adaptação de um conto de Margaret Atwood, “Stone Mattress”; e uma adaptação do livro de Stephen King, “A Rapariga que Adorava Tom Gordon“.).
Acabou por fazer o seu regresso com a adaptação do livro de Ariana Harwicz, “Die My Love” (Mata-te, Amor), o qual chegou ao grande ecrã com a estreia no Festival de Cannes, na corrida à Palma de Ouro.
Protagonizado Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, duas figuras que têm conquistado audiências no mundo do cinema de autor e mainstream, este drama sofrido sobre a inquietação de uma mulher que aparenta estar permanentemente à beira da loucura (na tradição de Sylvia Plath e Clarice Lispector) tomou Cannes de assalto, olhando para a paixão e para a falta dela, para o desejo de liberdade numa permanência enclausurada, e para os efeitos desestabilizadores de sentir que algo estranho que está em si, sem o entender ou conseguir travar. Captando a essência do livro de Harwicz, Lynne Ramsay faz um filme notável que não se rende à catalogação de objeto sobre uma mulher com depressão pós parto, ou então, sabemos lá, com Transtorno de personalidade borderline. E ainda que evoque o primeiro, vidas como a da personagem interpretada por Sissy Spacek servem como espelho para o futuro, instando os demónios internos de Grace a soltarem-se num ato de evitação a uma vida que sente não lhe pertencer.
A montagem dinâmica de Toni Froschhammer (Dias Perfeitos), ora repleta de um acelerado imediatismo, ora de contemplações reflexivas numa paisagem que age também ela como personagem, fazem avançar o filme num ritmo alucinante, mostrando inicialmente ao espectador os primeiros passos de Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson), um casal apaixonado (Jennifer e Pattinson), que se instala numa casa numa zona rural que pertence à família do homem. Paixão, sexo, brincadeiras e muito mais prolongam-se até ao nascimento do primeiro filho, começando progressivamente a existir um claro abrandamento do desejo de Pattinson pela esposa. Ao invés de uivos marcantes de cariz sexual ou de músicas a tocar que aproximam o casal das interações carnais, são os latidos de um cão que os afastam. Aos poucos, Grace começa a mostrar sinais de inquietação e desorientação, que começam a transbordar do seu âmago para o exterior. Jackson não entende o que se passa, mas a sua mãe, Pam (Sissy Spacek), consegue criar uma empatia e conexão particular com Grace, como que sugerindo que também ela e a sua mente teve sequelas na sua vida enclausurada naquele local (a personagem sofre de sonambulismo).
Com um pulso magistral na realização e atenção aos detalhes, Ramsey capta, com a ajuda da direção de fotografia, a transformação psicológica e física de uma mulher, nunca julgando, nem ela nem o companheiro, criando camadas e camadas de interpretação e sugestão que colocam, de forma maestra, livro e filme na mesma sintonia e urgência. O resultado é um belo regresso de Ramsey e uma Jennifer Lawrence nas raias da excelência na demonstração de uma desorientação ímpar de controlar os afetos e desafetos.
Crítica originalmente escrita em maio de 2025





















