Filmado ao longo de 15 anos, acompanhando a vida de uma família na fronteira entre Portugal e a Galiza, e em particular Mariana, uma menina que conhecemos pela primeira vez aos 4 anos, “Deuses de Pedra”, exibido no IndieLisboa após estreia no Festival de Roterdão, sabe manobrar o seu escopo através de um trabalho estético exemplar, a partir da opção concreta de filmar em 16mm, via um retrato etnográfico de um povo que assiste à transformação de um território pressionado por decisões políticas e sociais permanentes, focando-se num núcleo familiar que acaba por ser representativo de um coletivo.

E não deixa de existir amargura e melancolia ao vermos que Mariana, apesar de mostrar através de diálogos e pensamentos uma ligação maior àquele território e família, particularmente à mãe, acabe também ela por partir para outras paragens à procura de uma vida com novas oportunidades e aberturas profissionais. É ela que seguimos nas suas brincadeiras do jardim de infância, que entretanto fechou, e nas conversas que entretanto tem sobre a faculdade, que só existe fisicamente longe de ali. 

Pelo meio, o realizador galego Ivan Castiñeiras, jogando entre o passado e o presente onde o preto e branco dá lugar à cor, vai-nos contando histórias e estórias de uma região, mitos que se cruzam com o real, onde a falta de oportunidades já não é tão dramática como noutras eras (a certa altura assistimos ao regresso de antigos emigrantes), mas que mesmo assim mostra limitações nas opções (a ida do irmão de Mariana para Valência mostra isso mesmo). 

Já a mãe da pequena, separada do pai que viajou para as “ilhas”, faz mais de 100 km diários entre trabalhos de cuidadora em Espanha. E também se fala do contrabando de antigamente e de trabalhos de mineração adormecidos (Volfrâmio e Tungsténio), entretanto despertados pela nova necessidade em Lítio (o caso da Cova do Barroso, chave do western “Savana e a Montanha”, é mencionado).

Mas o que sobressai no meio deste retrato sentido tudo é a humanidade, respeito e ternura com que Ivan Castiñeiras filma toda a região e as suas gentes, com pérolas como a cena familiar ao som de “Danza Kuduro” a serem verdadeiramente tocantes, dando uma nova acutilância a um conjunto da sua obra investigativa que vai consolidando em torno das regiões periféricas e de quem as povoa.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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